Cardus Edição 66, 15-10-2019
Água
Onde não há água não há vida, é uma frase que toda a gente conhece. Pode-se estar dois meses sem comer, mas sem água morremos ao fim de alguns dias, três a cinco, dependendo das circunstâncias e resistência de cada um. A vida aqui é a animal, provavelmente existirão outras formas de vida que dispensam a água, mas connosco é assim: ou temos água por perto ou morremos.
Oiço dizer que a próxima guerra vai ser a guerra da água. Na Palestina o problema entre árabes e judeus, parece que é mais de água do que de religião. Os humanos são cada vez mais, mas a água é sempre a mesma, pelo que cada vez há menos água disponível para cada um de nós. E nota-se que ela vai faltando, os terrenos cada vez mais secos, os desertos a crescerem, os furos cada vez mais fundos. Num semanário muito conhecido era possível ler este fim de semana uma reportagem sobre dois rios do Norte que estão reduzidos a pequenas poças de água (Pônsul e Sever): a culpa é da seca, mas parece que a gestão do caudal do Tejo do lado espanhol também dá uma grande contribuição.
Mensagens para se poupar água são correntes nos tempos modernos. A água é um bem precioso, muitos de nós não se apercebem do bom que é, abrir a torneira e desta sair água. E podermos regar o jardim, tomar os banhos que quisermos, lavar a casa ou o carro. Há muitos locais da terra onde isso já não é possível, a água é racionada e banhos não se sabe o que isso é. E quem reclama da chuva que não para um dia vai suspirar por ela.
Provavelmente perguntam os leitores a que propósito é que vem o tema da água para esta crónica quinzenal. Muito simples e muito pessoal: algures na região de Leiria uma família comprou há cerca de sessenta anos um terreno com ideias de fazer uma casa. Naqueles tempos começava-se pelo poço, este foi construído e provavelmente chegou a ter água, mas a casa ficou para mais tarde quando a família regressasse definitivamente de África onde vivia e trabalhava. Quando a família regressou vinha amputada duma das partes pelo que não pôde assim concretizar o sonho da construção da casa. O poço lá estava, lá ficou, viu pinheiros nascerem e morrerem, viu e sentiu lixo a cair por ele abaixo, viu também alguém colocar-lhe uma tampa em cima, e viu finalmente, um dia, alguém a olhar demoradamente para ele. E a seguir tudo se passou muito rápido, alguém tirou-lhe a tampa de betão, desceu por ele abaixo pendurado num guincho, poisou num fundo seco, fez um pequeno furo de três metros, o fundo ficou cheio de água que uma maquineta fez subir por um tubo de plástico até ao exterior, donde jorrou ao princípio amarela mas depois clara e cristalina. E a história acaba assim, o poço voltou a viver e à volta dele vai provavelmente haver mais vida, uma vez que água já há.