Cardus Edição 65, 01-10-2019
O Anjo Azul
Suponho que toda a gente tem um filme que viu e nunca mais esqueceu. No meu caso, que já não vou ao cinema há mais de trinta anos (embora, por vezes, ainda perca algum tempo a ver filmes na TV), o filme é muito antigo, já o era quando o vi, chama-se o Anjo Azul, o respetivo cartaz está reproduzido acima.
O filme é um ícone do cinema, foi realizado por Josef von Sternberg em 1930, é a preto e branco, foi dos primeiros a ter som, tendo sido realizadas duas versões, uma em língua inglesa e outra em alemão. A grande beneficiada do filme foi a atriz Marlene Dietrich, que a partir daí foi lançada para o estrelato, já morreu há uns anos, mas a maior parte dos velhotes ainda se lembra dela e das suas famosas pernas.
O argumento do filme é mais ou menos o seguinte, já não me lembro bem de todos os pormenores:
Immanuel Rath é um professor à moda antiga (estava-se em plena república de Weimar) competente, rigoroso, ríspido, extremamente autoritário e vingativo, aquele tipo de professor que os alunos detestam e de quem se vingam com partidas, sempre que têm oportunidade. O professor já é entradote, vive sozinho, tem uma governanta que lhe trata da casa, a sua vida é uma constância de rotinas, desde o pequeno almoço solitário até ao deitar, passando pelo ritual da escola, o entrar na sala, o mandar sentar os alunos, o assoar com o lenço, o olhar fulminante para algum desestabilizador ocasional, os mais fracos com medo do professor na aula e dos colegas no recreio.
A história começa com o professor apercebendo-se que uma foto é a causa da distração de um dos alunos. Esta é rapidamente confiscada, trata-se duma bailarina, com uma saia colada, quando se assopra a saia sobe, descobre as pernas que a saia esconde. Através dum interrogatório rápido, o professor fica a saber que a bailarina se chama Lola e que atua num cabaret da vila, chamado Anjo Azul, frequentado pelos seus alunos, senão todos pelo menos os mais vivaços.
O professor, ativo na sua função de educador, toma então a decisão de não só ir ao cabaré correr com os seus alunos de lá para fora, como também ter uma conversa com a bailarina, pedir-lhe para não andar a perturbar os seus pupilos adolescentes.
Nessa noite vai então ao cabaré, onde nunca tinha entrado, ficando rapidamente meio perdido nos meio das luzes e na atmosfera de sedução, sensualidade e, principalmente, com as pernas bem torneadas e realçadas da Lola, que entretanto apareceu no palco, cantando uma canção melodiosa, envolvente, o professor já não sabia onde pôr os olhos se no palco se na plateia, onde os seu alunos se escondiam. Acaba por ir parar ao camarim da Lola, fica fascinado, toda a sua energia se esvanece perante aqueles olhos azuis e claros, os caracóis louros e, principalmente, a voz cativante, um anjo caído na terra. No meio da perdição acaba por levar para casa as cuecas da Lola que, enquanto o recebia, ia mudando de roupa atrás dum biombo, e que um dos alunos, que o vigiavam, oportunamente meteu nos bolsos do seu sobretudo.
No dia seguinte lá estava o professor, para devolver as cuecas à dona, já é conhecido da casa, vai direto ao camarim, alguém traz champanhe, o professor é levado para o balcão dos notáveis, a Lola, sentada num barril, pernas cientificamente cruzadas, canta uma canção para ele, para ele estão virados os seus olhos azuis, cândidos, o professor embevecido sente-se leve, sobe ao céu, não se sabe quanto tempo lá esteve, quando acordou estava numa cama que não era a sua, tinha um boneco na mão, descobre a Lola sorridente ao fundo do quarto e descobre também que já estava atrasado para as aulas.
E a tragédia começa agora, os alunos têm a oportunidade soberana para se vingarem do tirano. Quando o professor, com dez minutos de atraso, entra na sala, vê-a decorada com desenhos eróticos, a sua figura apalhaçada e nua está exposta por todo o lado, em posições pouco abonatórias, rodeada duma constelação de pernas. Tenta apagar tudo, os alunos levantam-se, batem com as carteiras, não sei se cantam ou se gritam, o barulho atrai o conselho da escola, que entra na sala, vê a confusão toda e principalmente os desenhos, manda sair os alunos, que obedecem respeitosamente, por fim ficam na sala apenas o reitor e o professor: o primeiro fica a saber que o segundo vai casar com a Lola, este que está despedido.
Feliz o professor despedido, livrou-se do inferno, compra um ramo de flores e vai rapidamente para o céu, onde as portas estão todas abertas até ao camarim da Lola, que sorri para ele, que atira as flores para um canto, e que dá uma grande risada quando ele a pede em casamento. O professor vacila, mas tudo passa rápido, a Lola aceita o pedido, o professor está feliz, a Lola contente. O casamento é em grande, o elenco do cabaré todo presente, na festa o ilusionista faz uns malabarismos com ovos e descobre-se que o professor tem um jeito especial para imitar pássaros.
Há que dar trabalho ao professor desempregado, a Lola começa por pô-lo a vender os seus postais após a sua atuação. Mas é pouco e não rende muito, o professor vai dar uma ajuda aos palhaços, é agora palhaço por dentro e por fora, colabora com o ilusionista, saem-lhe pássaros da cabeça, chilra como um pássaro, ovos esborrachados escorrem-lhe pela cara, o público diverte-se com as habilidades do ilusionista e os dotes do palhaço, o show é um sucesso. Enquanto o marido trabalha a Lola diverte-se, o palhaço quando regressa ao lar, não ousa subir para o quarto superior, há lá algum movimento, não quer incomodar a mulher.
Chegam pessoas importantes à terra que querem ver o show famoso, toda a gente quer ver o palhaço dotado, os seus antigos alunos estão na primeira linha da plateia, o show vai começar, o palhaço não quer ir, é puxado e empurrado, aí está ele, o riso geral, os pássaros saem-lhe da cabeça, a plateia ri, os ovos escorrem-lhe pela cara abaixo, a plateia ri ainda mais, o palhaço chilra, mas não para de chilrear, chilra cada mais alto, chilra para baixo, para a mulher que vê com o amante, agora é um pássaro desesperado, chilra e voa, voa para a Lola, garras no pescoço, que aperta enquanto chilra, e aperta cada vez mais, até não poder, porque foi imobilizado, e enfiado numa camisa de forças, e atirado para um canto, onde fica só, como quando era professor. O ilusionista aparece mais tarde, um ligeiro sentimento de piedade apodera-se dele, liberta o palhaço, este foge, ainda sabe o caminho para a escola, já é noite mas abrem-lhe a porta, vai para a sua sala de aula, senta-se à secretária, quando o vigilante chega encontra-o morto, não foi possível retirá-lo dali, as mãos grudadas na mesa não o permitiram.
Por alguma razão este filme ficou-me na memória, talvez por alguma sensibilidade que tenho aos temas da dignidade humana. O filme é intenso, levado ao limite, mas na vida comum, em maior ou menor grau, há muitas situações em que alguém, por uma ou outra fraqueza, acaba por cair na situação do palhaço. Ao palhaço não se dá atenção, não se conta com ele para nada, a não ser para representar bem o seu papel, que é o de divertir e garantir o espetáculo. O problema, ou o melhor da peça, é que às vezes os palhaços acordam, reagem, não tão tarde quanto o professor, mas ainda a tempo, de se levantarem, com força crescente, a festa a minguar, o espaço a crescer, e a dignidade, quiçá o respeito, ao ritmo certo, a tomar o seu lugar.