Cardus Edição 64, 15-09-2019
Viver o passado
Ainda faltavam dez minutos para a hora da partida e já corredores de gente se dirigiam para a gare onde a composição os aguardava, a máquina já atrelada e arfante. Um rancho folclórico, trajado à maneira e interpretando cantigas populares, deslocava-se para lá e para cá da gare, amenizando a espera pela partida. A locomotiva a vapor (a CP 0186, alemã, construída pela casa Henschel & Sohn nos anos 20 do século passado) era o centro das atenções, máquinas fotográficas e telemóveis registavam-na de todos os lados e frentes. Os maquinistas colaboravam, consoante o pedido assim se colocavam ao lado do cilindro, à frente ou junto à escada, ou mesmo numa selfie com o autor, o dito e a menina ao fundo. Por alguma razão eram três. No intervalo das fotos faziam algumas verificações, porque a menina já tem idade e sofreu muitas operações, é preciso garantir que tudo está bem.
Não foi difícil descobrir os lugares previamente comprados e marcados, os números gravados a latão, bem visíveis nos assentos de madeira. O comboio que contrariamente às expectativas iniciais estava completamente cheio, não arrancou na hora exata, arrancou uns minutos depois talvez para recordar que estamos no passado, os horários dos comboios servem apenas para se saber quanto atrasados estão. O apito da máquina deu o sinal e as carruagens começaram a mexer-se lentamente. Mais uma grande sessão de imagens e vídeo com toda a gente fora e dentro das carruagens a registar o início do movimento, as pessoas a acenar, clientes das Wine Houses com os copos cheios bem ao alto, os sons característicos dos metais e madeiras a rangerem. A estação de Peso da Régua começa então a ficar para trás, o Comboio Histórico do Douro iniciou a sua viagem até Tua.
Trac, trac, … trac, trac, o comboio segue para montante pela margem direita do Douro. Do rio (dos barcos) acena-se para o comboio, do comboio acena-se para o rio e tiram-se mais umas fotos. Altura então para se apreciar as encostas com as vinhas alinhadas e limpas, umas atrás das outras. E por momentos parece que estamos num outro Portugal, cuidado, arrumado, como ele todo poderia ser, assim a raça que por cá se instalou tivesse outras preocupações e outra educação. A máquina apita sempre que se aproxima mais um apeadeiro ou estação, mas segue em frente, só para no Pinhão. Alguns túneis, o comboio segue quase a roçar o rio. Adolescentes aproveitam para poses fotográficas, à janela, na varanda da carruagem, cabelos sempre ao vento. Entretanto aparece o revisor (farda tradicional, mas um ar menos sisudo que o habitual) a verificar e obliterar os bilhetes com o alicate próprio, quem tem bilhetes em telemóvel sente-se noutro planeta.
O rancho folclórico também embarcou, todas as carruagens têm agora direito a uma música completa. Aos viajantes é oferecido vinho do porto em copos de plástico pequenos. Contempla-se as vinhas, saboreia-se o que elas produzem.
O Pinhão aproxima-se, na gare da estação está uma linha contínua e grossa de pessoas a aguardar e acenar para o comboio que chega. Já não traz o correio nem as encomendas, que agora já não há cartas e as encomendas são entregues por outros meios, mas traz gente alegre e descontraída, que enchem a gare logo que o comboio para. É tempo de observar os azulejos vinhateiros, mas antes é preciso correr para apanhar um bom lugar para registar a menina a beber água - e que bem que ela bebe.
Mais um silvo anuncia que é hora de partir para o Tua. A viagem agora é mais rápida, não porque o comboio aumente a velocidade, mas porque a distância é mais curta. Funcionários distribuem garrafas de plástico com água, estamos no verão, as carruagens estão quentes, o vento não chega para as refrescar e o ar condicionado ainda não se sabe o que é.
O Tua não tem nada, apenas a estação, dentro da qual é possível comprar artesanato e produtos regionais. Há agora um pormenor técnico, o comboio volta para trás, pelo que a menina tem de dar a volta e colocar-se no outro extremo da composição, com a frente apontada a jusante. Desaparece assim por momentos, mas eis que aparece de novo já com a frente na direção certa. Passa ao lado do comboio, segue em frente, para, muda de linha e faz marcha atrás, aproximando-se da carruagem onde vai engatar. Vem devagar, uma oportunidade para ver o complicado mecanismo de transformação de movimento linear em circular em ação. Na zona do engate está já um batalhão de gente armada com câmaras e telemóveis preparado para a reportagem. A operação de engate é delicada e de grande precisão, a máquina tem de parar no momento certo e o engate colocado muito rapidamente, para evitar repetições e sacudidelas nas carruagens. Um ligeiro tremelique da composição e o ar realizado dos operadores indicam que tudo correu bem, a máquina está atrelada, o comboio pode regressar à Régua, o batalhão pode desandar e deixar os técnicos respirar.
Nem os lugares nem a carruagem mudam, pelo que, quem não veio do lado do rio continua a ter de aproveitar as nesgas dos que souberam escolher os melhores lugares para ver o rio e as encostas em frente. Também pode ir até às varandas de acesso onde já vai muita gente, mas há sempre lugar para mais um, além de que as pessoas rodam bastante, a paisagem é bonita, mas o fumo dissuasor de permanências demoradas. Mais uma paragem no Pinhão, mais água, e já perto da Régua uma distribuição de doces regionais e já agora preencher um questionário para avaliar o grau de satisfação dos viajantes. Perto do fim, a equipa de apoio recolhe todo o plástico que andou a distribuir, uma nota ecológica que fica muito bem à organização.
E assim se viajou da Régua ao Tua como se viajava há quase cem anos. A viagem demorou cerca de três horas com os tempos de paragem incluídos. Pagou-se €42,50 por pessoa, há quem ache caro, não é o meu caso devido à especificidade e sazonalidade da viagem. A organização é da CP, o comboio circula aos sábados e feriados nos meses de junho a outubro. O número de viagens foi reduzido este ano, os autarcas da região receiam pelo futuro desta atração do Douro, sabem que a CP se rege por padrões financeiros. Quem é nostálgico de comboios antigos é melhor aproveitar enquanto é tempo, ninguém sabe o dia de amanhã.