Cardus Edição 63, 01-09-2019

Sonho de Uma Noite de Verão

Antes do sonho aparecer era apenas o silêncio e o nada. O sonho entrou de rompante. E era um barulho ensurdecedor e o céu cheio de cor e estrelas efémeras que nasciam e morriam antes de atingirem a Terra. E os sons eram fortes, vibrantes, tipo rajadas de metralhadora e granadas a rebentar à mistura com disparos de canhão. O céu parecia um campo de batalha com fogos cruzados e coloridos. E o sonho manteve-se, metralha seguida de metralha, canhão seguido de canhão, rebentamento seguido de rebentamento. E o sonho durou e durava e parecia não mais acabar. Felizmente nada é eterno e o sonho também não: a determinada altura notou-se-lhe um cansaço, foi morrendo lentamente, mas ainda assim muito lentamente, o estertor final foi dado muito depois de o julgarem morto.

E então vieram novamente o silêncio e o nada.

Foi sol de pouca dura, três, quatro horas depois o sonho entrou novamente. E agora eram foliões, que regressavam da festa, animados e alegres. E falavam e riam, e riam e falavam e assim continuavam mesmo depois de interpelados por um mostrengo que não ria nem sorria. E a folia continuava, falas tu, rio-me eu, falo eu, ris-te tu e eram seis os foliões que riam e falavam, e nunca mais se calavam. Mas o nada e o silêncio acabaram por se impor, os primeiros dois foram difíceis, os segundos mais fáceis os últimos já não ofereceram grande resistência.

E então o silêncio e o nada vieram ter de novo com o homem que sonhava, mas não queria sonhar.

Mas por pouco tempo, duas ou três horas depois o sonho voltou a atacar. Agora foi um tiro de canhão, só o tiro e o estrondo, sem cor. No sonho não se via o trovão mas sabia-se que o trovão não tinha cor. Foi um tiro que se pensava isolado, mas não, logo o seguir outro e mais outro, aparentemente a uma cadência certa, mas também não, quando se pensava que já não havia mais tiros, eis que eles surgiam novamente, agora entremeados por rajadas de metralhadora. Algo ia acontecer, algo importante estava a ser anunciado: e foi então que a banda começou a tocar. A banda azulada desceu a rua, mais uma marcha, mais uma rua, o adro da igreja com direito a uma marcha inteira e mais uma rua e uma marcha e assim sucessivamente até voltar ao início, devidamente assinalado com mais um tiro de canhão. E mais umas metralhas e umas canhoadas e finalmente o sonhou acabou.

Desta vez já não vieram o silêncio e o nada porque, entretanto, já era dia, o sol já ia alto, e o homem que sonhou e não queria sonhar, levantou-se, tomou o pequeno almoço, pagou o parque, e foi à procura de melhores sonhos para outro lado.

É assim o verão em Portugal. Não há terra nenhuma que não tenha a sua festa, a procissão, muita música (banda dos bombeiros e convidados de palco) e fundamentalmente o seu fogo de artifício, obrigatoriamente mais vistoso e rico do que o da aldeia do lado. E o povo contente e alegre, há que viver o momento e recordar o passado, o futuro seja o que Deus quiser.