Cardus Edição 61, 01-08-2019

Portugal em Ruínas

Provavelmente foi uma rua muito movimentada. De manhã os homens saíam para a fábrica e campo, o moleiro para o moinho, as crianças para a escola, as mulheres arrumavam a casa e preparavam o almoço que algumas levavam para os maridos que trabalhavam no campo. As roupas lavavam-se no rio, que corre logo abaixo, leva menos água mas continua vivo neste mar de abandono e ruína.

As crianças cresceram, foram viver para outros lados mais animados, com mais gente, mais ruas, mais prédios e mais barulho. Os velhos foram ficando e morrendo, ora aqui, ora abandonados num lar ou num canto duma casa. A natureza foi invadindo o lugar, as habitações caindo, os tetos vindos abaixo. Nem tudo está morto, a horta junto ao rio mantem-se ativa, alguém vem de longe cuidar dela, quando morrer morre também a horta, não fora o rio e o espaço ficaria completamente morto.

As paredes um dia cairão definitivamente, os tijolos regressarão à massa de que foram feitos, outras coisas irão nascer e crescer neste lugar que foi vida de muita gente. Enquanto esse momento não chega vamos vendo as ruínas, memórias de morte lenta, estas e outras de que o país está cheio, ninguém lhes quer abreviar o destino.