Cardus Edição 60, 15-07-2019

Couscous

Quando o europeu se dirigia para o carro cedeu passagem a uma criança que contudo não seguiu em frente, pelo contrário, deixou-se ficar e disse qualquer coisa que aquele não entendeu. O europeu não gosta de pedintes, tentou livrar-se da criança mas não conseguiu, não ganhou coragem para a empurrar e fechar a porta do carro. Estava acompanhado por alguém que falava crioulo, a determinada altura as frases passavam-lhe pela frente, a conversa entre a criança e o condutor fluía. A criança sempre muito séria, ouvia e retorquia, nunca sorriu nem quando o europeu lhe fez uma festa desajeitada no nariz, nem mesmo quando vencido pela espera e pelo ambiente retirou da carteira uma nota de 500 francos, supostamente a esmola pedida. Reparou então que a criança não queria o favor, queria apenas vender cones de couscous que transportava numa quinda à cabeça e donde começou a retirar  alguns. Percebeu as contas da criança que rápidamente concluiu que para perfazer os quinhentos francos seria necessário entregar ao comprador dez couscous uma vez que cada um custava cinquenta francos. Ao sexto couscous o europeu disse que não queria mais, a criança, sempre séria, demorou algum tempo a aceitar a oferta, ainda quis devolver o troco, acabou por ficar com ele face à insistência do comprador. Mais uns segundos e o carro arrancou, o europeu respirou aliviado, a criança recolocou a quinda na cabeça,  pelo retrovisor tentou vislumbrar um sorriso de satisfação ou mesmo uma ligeira manisfestação de raiva ou revolta na criança, mas nada, apenas o mesmo ar simples, sério e sereno.

No regresso a casa a conversa em crioulo foi traduzida para português. A criança tinha vindo da tabanca para a cidade para ser educada por uma familiar, uma tia no caso. Como quase sempre acontece na terra a nova família põe a criança a trabalhar, não vai para a escola, para aqui vão apenas os filhos diretos. O interlocutor bem tentou convencer a criança a voltar à tabanca, mas não deve ter sido ouvido, ou foi ouvido mas a criança não tem outra solução para a vida a não ser andar a vender cones de couscous na rua para a tia.

Corações duros os dos africanos, temperados por uma vida dificil e dura. Há muito que fazer ainda pelas crianças, não pelas que estão perto de nós, que são cada vez menos e já têm tudo e mais alguma coisa, mas pelas que estão mais longe, que não têm direito à educação, que não sabem sorrir, apenas forçadas a vender couscous nas ruas de Bissau e de outras cidades do mundo.