Cardus Edição 59, 01-07-2019
A figura central da foto é uma árvore. Uma senhora árvore. A foto não consegue transmitir a grandeza plena desta árvore, mas ela é grande, grande mesmo e não é só no tamanho. Por baixo da sua copa verdejante existem casas e vivem pessoas. É preciso ir junto dela e olhar para cima para nos apercebermos do espectáculo da natureza que são os seus ramos possantes e grossos, emergindo do caule central e multiplicando-se infinitamenta até ficaram reduzidos a pequenas folhas ou frutos terminais. E neste emaranhado de ramos musculados e folhas vibrantes é possível ver pássaros de todos os tamanhos desde passaritos a duas águias também majestosas. A árvore vive e suporta vida, a sua copa como que nos envolve, nos protege, nos anima, diria mesmo, nos abraça. Esta árvore é um PÓLON e vive em Cacine perto do porto.
Existem muitos pólons na Guiné-Bissau, provavelmente também existem pequenos mas, os que dão mesmo nas vistas, são os grandes. O Pólon é um centro de atração, em Cacine espera-se pela canoa debaixo dum pólon. E como geralmente em locais de espera há cadeiras e bancos para as pessoas se sentarem e conversarem ou nada fazerem, simplesmente olharem no vazio ou para o seu próprio interior que não se vê. O Pólon protege todos, os falantes, os calados, os barulhentos, os calmos, grandes, pequenos, quem quer que seja. É um chapéu envolvente, não sei se as pessoas se zangam debaixo dele, sou inclinado a dizer que debaixo dum pólon não há zangas, mas devo estar a arriscar muito, o pólon provavelmente não quer zangas, mas os humanos não são pessoas respeitadoras e obedientes.
Perante tanta generosidade e grandeza é natural que haja quem olhe para um pólon e coloque nele uma alma, a tal coisa imaterial que há quem veja dentro das coisas materiais, como nós própios, que dizem que também temos uma. E a alma dum pólon pode até ser uma alma superior à nossa, por exemplo a dum Deus que se alojou dentro dele. E neste caso o Pólon é sagrado e, como alma superior que é, tem mais poderes que nós, pode fazer coisas noutra dimensão, tem poder sobre as nossas almas, pode-nos fazer sofrer, fazer felizes, satisfazer as nossas vontades, pode-nos, também, castigar por algo que não devíamos ter feito.
O Pólon do foto não é sagrado, mas há os que são. Neste caso só pode ser visitado por alguém especial, alguem que tem essa função para a qual foi educado e adquiriu os conhecimentos necessários, não num seminário mas por transmissão de geração em geração. Alguém que aprendeu a reza, que sabe como comunicar com o Pólon sagrado, que pode assim transmitir a nossa vontade ou desejo, seja de bem seja de mal, nos desejos dos humanos há vontades para tudo.
Confesso que me é simpática uma religião que coloca espíritos ou almas em toda a natureza e não só no homem como fazem as mais massificadas. Uma árvore, um animal, uma pedra, tem vida e não é eterna. Um dia a árvore vai morrer, o animal também, a pedra vai ficar reduzida a pó. Mais tempo, menos tempo, ninguém se livra do fim trágico, nem nós nem toda a natureza que nos envolve. Porque raio somos os únicos com alma? Porque raio somos os únicos que temos direito à vida (?) eterna? Porque raio ninguém quer deixar de existir e dar lugar a outros?
Bom, o propósito deste jornal não é filosofar sobre religião ou temas religiosos, pelo que autor vai ficar por aqui, vai deixar-se de devaneios sobre assuntos dos quais não percebe nada e onde há apenas que respeitar a crença de cada um. Mas vai continuar na religião, no animismo, agora, com um pequeno salto virtual aos Bijagós, por enquanto, um património natural e espiritual único em toda a costa ocidental africana.
O arquipélago é constituído por oitenta e oito ilhas das quais apenas vinte e uma são permanentemente habitáveis. Todas as outras são sagradas, isto é, são terras de deuses e espíritos, seres poderosos do além. Os deuses deixam que os humanos visitem as ilhas, não lhes permitem é estragar ou fazer qualquer coisa com carácter definitivo. Lutar ou verter sangue numa ilha sagrada é totalmente proíbido, isto os deuses não perdoam, quem o fizer vai arrepender-se cedo, os deuses irados são implacáveis nos castigos que aplicam aos humanos distraídos. Em algumas ilhas também não é permitido fazer sexo, os deuses querem algum decoro e maneiras de quem visita os seus domínios. Pode-se morrer na ilha sagrada mas o morto vai ter de regressar rápidamente à origem e a família obrigada a matar uma vaca e oferecer tabaco ao comité de anciãos, os representantes na terra dos proprietários etéreos.
Os deuses permitem que se cultive nas suas ilhas, nomeadamente arroz. Também são tolerantes com uma ou outra vertidela ocasional de sangue, uma pequena ferida ou uma mordidela de algum animal. Esta tolerancia também não aparece por acaso, atempadamente, os régulos, os agentes em terra dos deuses, fazem um cerimónia especial, pedem aos deuses que não se zanguem com estas pequenas ofensas que possam aparecer, algumas atenções especiais e os deuses fazem vista grossa a estes pequenos deslizes.
E assim reina a paz neste paraíso de águas tépidas, bancos de areia e praias de areia fina. Os deuses seguros que não vão ter de se irritar, as tratarugas-verdes seguras de que não vão morrer à pancada, quando no fim do verão chegarem à ilha de Ambeno para desovar, os crocodilos calmamente a nadar, a colónia única de hipopótamos marinhos a respigar e a maior população de manatins da África Ocidental a brincar. E ainda o milhão de patos limícolas da Europa e da Ásia que calmamente aqui esperam que a primavera regresse ao lugar donde vieram.
Há muitos anos na função de turista de consumo, navegava pelo Konig See, um lago encaixado entre falésias altas naquela parte alemã em forma de cunha que entra pela Áustria dentro. Navegava num barco movido a energia eléctrica, silenciosa, para não perturbar as trutas e outros peixes, acompanhado de mais não sei quantos pacóvios, que como eu apreciavam as costas escarpadas que ladeiam o canal. Pelos altofalantes o locutor ia desbobinando a ladainha habitual, ao que, por um mero acaso e contrariamente ao que é normal, estava atento. Foi assim que ouvi a seguinte frase que nunca mais esqueci: “ O Koenig See” é um parque natural protegido, ninguém pode alterar o que quer que seja, construir ou destruir; o que veem agora, é o mesmo que alguém vai ver, amanhã, no futuro, quando quiser. A eternidade afinal existe pode ser estabelecida por decreto.
É assim, deveria haver lugares em que fosse proibido mexer ou alterar. Ficassem eternamente como estão. Deveria, mas não há, nem isso é possível, a evolução do mundo não o permite, nem o Konig See se vai safar. O santuário dos Bijagós, santuário da vida vegetal, animal e espiritual, não vai estar como está durante muito tempo. A palha das palhotas começa a ser substituída por zinco, as canoas começam a receber motores e o barulho começa a aumentar. E depois as canoas vão passar a barcos a as palhotas a hotéis exóticos, e pacóvios endinheirados vão começar a ocupar o espaço dos deuses, cujas iras e castigos não vão resolver nada, porque esta raça de invasores está protegida pelo progresso, pelo protetor solar, pelos óculos Ray-Ban, pelo álcool e por uma coisa que os deuses não conhecem que é o dinheiro, que move montanhas e que tudo compra, até os favores divinos. E o Bijagós vai deixar de cultivar arroz, passar a vestir um fato preto com camisa branca, espremer cocos e entregar o respetivo sumo em copos decorados espalhados numa bandeja na praia onde pessoas semi-nuas e pachorentas os aguardam. E as tartarugas vão ter máquinas fotográficas a entrarem-lhe pelos olhos dentro e os crocodilos, hipopótamos e manatins vão aprender a desviaram-se de chatas velozes, cheias de gente curiosa, feliz e alegre.
Não vale a pena ir a correr já para os Bijagós, aproveitar para ver enquanto as coisas não mudam. Deixem-nos estar sossegados. Há coisas que não são para ver, apenas saber que existem e nada mais.