Cardus Edição 58, 15-06-2019

Cardus

nº 58

Professor de Informática

A Associação dos Amigos das Escolas da Guiné-Bissau têm um edifício próprio em Cacine, onde, alêm das instalações de apoio à instituição, tem também uma sala de informática (IT School) e os estúdios e emissor da rádio que é apoiada pela associação.

A Sala de informática foi criada com o objectivo de proporcionar à comunidade de Cacine conhecimentos na área das tecnologias de informação hoje em dia fundamentais para controlo de pequenas ou grandes actividades  de gestão, bem como comunicar num mundo cada vez mais global.

A Energia eléctrica para alimentar o equipamento de rádio  e os computadores vem dum pequeno gerador a gasolina. Existe um painel solar com baterias mas, sózinho,  apenas consegue alimentar um PC por algumas horas. Para haver rádio no ar é assim necessário ligar o gerador, cujo combustível tem de ser comprado, para o que é preciso dinheiro que não abunda na associação nem em Cacine e arredores e patrocinadores não há. A gestão rigorosa de custos leva a que a utilização da sala de informática para a realização de cursos de formação tenha de estar alinhada com a rádio no ar e vice-versa. Como há rádio à noite pode haver curso noturno, se por razões imperiosas for necessário realizar um curso de dia, a rádio aproveita e emite mais uma horitas fora do horário normal.

Todo o quipamento da sala foi doado, desde os computadores às posições de trabalho tal como um pequeno ar condicionado de chão de eficiência muito limitada. As doações vieram principalmente da Suécia mas há contribuições de muitas mais nacionalidades como pode ser visto através da variedade enorme de teclados. Há os em português, francês, sueco, inglês e até uns esquisitos que eventualmente poderão ter origem na Hungria. Como o SW está em português, quando se chega à altura de ir à procura dos acentos ou dos sinais é a confusão generalizada, o acento agudo não aparece, carrega-se no “=” e sai-nos um “?”, alguns alunos imaginativos criaram um mapa de teclas especiais para se poderem orientar no PC que lhes calhou.

Para dar cursos é necessário um formador, que também custa dinheiro, que não há, felizmente para estes casos há um recurso moderno que se chama voluntário, que permite que ações deste tipo não deixem de ser realizadas por não haver dinheiro. Os voluntários podem vir de todo o lado, neste caso o voluntário veio de Portugal, daqui para a frente é designado por professor de informática, era assim que era tratado na escola e arredores.

Quando o professor de informática chegou à vila seguiu o procedimento standard aplicado pelo director da escola a quem chega: no primeiro dia foi apresentado às autoridades locais, onde para além do régulo, polícia e administração se incluem também as autoridades religiosas; no segundo dia foi apresentado na escola Betel que também é administrada pela associação.

As actividades da escola Betel, iniciam-se, regular e pontualmente às 07:30 da manhã. Nesta hora todos os alunos encontram-se alinhados no pátio,  tendo à sua frente o corpo docente que ladeia o director. O elemento novo, o voluntário recém-chegado, estava alinhado nos docentes, para ali tinha sido encaminhado. Depois das boas vindas, o professor de informática foi convidado a dizer umas palavras, para o que não tem muita apetência e jeito, mas o ambiente acolhedor trouxe-lhe as palavras simples que o momento necessitava. Para surpresa sua, entregaram-lhe uma prenda embrulhada, que teve de abrir e donde retirou uma camisola, a camisola oficial da escola, que só não vestiu logo, porque tinha de tirar a camisa, conforme explicou à assistência, acescentando que iria vesti-la com muito orgulho e tentar ser digno dela. Como todos os dias, cantou-se seguidamente o hino da Guiné e logo de seguida o hino da escola. O professor de informática também cantou, mesmo sem saber a letra, não lhe tinha sido dificil arranjá-la em avanço, mas descura sempre estes pormenores, não tem sensibilidade para eles. Terminada a cerimónia, as aulas começaram, as do professor começavam mais tarde, num outro edifício, numa outra zona da vila, para onde se dirigiu, mais tarde, acompanhado pelo anfitrião.

E eis então o professor na sala de informática com mais doze alunos curiosos de conhecer a figura envelhecida que estava ao lado do director. Este fez uma apresentação sumária, pediu aos alunos para aproveitarem a oportunidade desejou boa sorte ao professor, tirou umas fotos e saíu.

O professor levava umas ideias amadurecidas de como iniciar a aula. Começaria por mostrar aos alunos como a informática pode facilitar o trabalho, como por exemplo fazer imediatamente um layout da sala com as posições que cada aluno ocupava, para mais fácil identificação. Lista manuscrita na mão, abre o power point, insere um quadrado, coloca-lhe um nome dentro, quem é, onde é que está, aqui, o segundo ao lado, o terceiro, o décimo segundo, já estamos todos, vamos pôr também o professor, e dar um título, e ir à internet e sacar a imagem da bandeira da Guiné-Bissau e inserir aqui no topo esquerdo e, … e o professor seguia entusiasmadíssimo, até que resolveu parar, já não havia espaço no power point. Sorriu para os alunos e perguntou-lhes o que é que achavam.

O professor reparou então nos alunos. Lembrava-se que no início estavam todos com um sorriso expectante, mas agora estavam todos com um ar sério a cair para o carregado. Ninguém respondeu à pergunta, continuavam a olhar seriamente para o professor. Mais uma tentativa, gostaram do mapa, do lay out? Nada. Olhos no professor e mais nada. O professor achou por bem fazer a pergunta directamente a um aluno. O mesmo olhar, resposta zero. Como é que te chamas? Finalmente uma resposta acompanhada dum sorriso, agora foi o professor que ficou muito sério a olhar para o aluno, percebeu que o aluno se tinha identificado, não percebeu foi nada do que ele disse. Felizmente hora e meia passam depressa, a primeira aula da manhã terminou com o professor tentando identificar quem era quem da lista que tinha recebido.

Para a sessão da noite o professor mudou de estratégia. Deixou-se de demonstrações de como a informática nos pode facilitar a vida, distribui um inquérito para averiguar os conhecimentos que os alunos tinham de informática e recebidas as respostas tentou, um a um, aferir as respostas dadas. A sessão correu melhor que a da manhã, mas o problema da comunicação continuou, grande parte dos alunos não percebiam as perguntas do professor e quando as percebiam, era a vez do professor não perceber a resposta.

Não foi nesse dia nem nos seguintes, foi já cerca de quinze dias depois, que o professor de informática se apercebeu que, na Guiné a língua oficial é o português, mas só uma pequena percentagem a fala, a comunicação corrente e popular é em crioulo. Só ao fim de quinze dias os alunos começaram a perceber o que é que o professor dizia, o professor ainda hoje baralha os nomes e não pronuncia nenhum como deve der, excepto claro os de origem portuguesa, que são muito poucos.

O professor de informática dormiu pouco a pensar que no dia seguinte não teria nenhum aluno na sala, teriam fugido todos do maluco que falava, a ritmo elevado, uma língua que ninguém entendia. Nesse segundo dia ele e o adjunto chegaram quinze minutos mais cedo, abriram a porta e … começaram a entrar alunos. À hora do início estavam lá todos os do dia anterior e mais alguns que tinham faltado à primeira aula porque não tinham sido avisados do início das aulas. Desta vez foi o professor que sorriu, naquele momento teve início um projecto construtivo de formação de pessoas em informática, em que todos colaboraram, desde o professor aos alunos. O projecto podia ter sido destruído logo no primeiro dia e mesmo nos seguintes, era fácil arranjar motivos ou razões. Não foi porque o objectivo das partes não era esse.

Havia que mudar alguma coisa depois da experiência desastrosa do primeiro dia. O professor concluiu  que, exemplificar num PC e projectar na parede para a assembleia acompanhar não resultava, os olhos sérios dos alunos não enganavam ninguém. Resolveu então “atacar um a um”. Punha-se ao lado, faz assim, faz assado, os alunos não percebiam mas como viam fazer foram percebendo, apontar o botão ou a tecla é melhor que identificá-los pelo nome. As coisa começaram a melhorar, os sorrisos começaram a aparecer, a transmissão de conhecimentos começou a dar alguns passos.

E foi assim uns dias até que houve que mudar novamente porque o tempo passava, o programa era longo e o progresso lento como é fácil adivinhar.

Qual foi a nova estratégia? Pô-los a trabalhar! Este foi o nome arranjado pelo professor para a nova fase do curso, o professor andava cansado, sem paciência e a dormir pouco, embora as noites de insónia também lhe trouxessem boas ideias. Irritava-se nas aulas mas os alunos estavam mais interessados em aprender do que dizer ao professor que, não perceber ou não saber, não é crime. O professor também estava consciente que o que tem a mais de idade tem a menos de conhecimentos pedagogicos.

Agora não era o professor que ia ao aluno, este vinha ao professor, melhor, sentava-se no lugar do professor e fazia o que este indicava. O resultado era projetado na parede para todos verem e acompanhar, agora a uma velocidade aceitável, com as dificuldades comuns a surgirem imediatamente e a poderem ser corrigidas ou esclarecidas. Os alunos rodavam, tocava a vez a todos, o professor acompanhava agora calmamente as matérias, com uma volta rápida pelas bancadas resolvia os casos mais pontuais.

Esta estratégia não passou a definitiva, nesta altura do campeonato, a menos de duas semanas do fim do curso,  a estratégia a aplicar diáriamente varia com a matéria, com o tempo disponível e com a sensibilidade do momento. Os alunos já estão mais habituados ao professor e este também já os conhece melhor, já os chama pelo nome embora continue com dificuldades na pronúncia de alguns. A má pronúncia reflete-se nas letras, por exemplo, os alunos dizem que o professor troca o “Z” pelo “G”, que dá alguma confusão nos atalhos das teclas, mas já estão prevenidos.

Há vida para além da escola, uma vez uma aluna trouxe umas mangas para o professor, um dia o professor encontrou à porta de casa um saco com cocos. Tudo bem, gestos simpáticos, neste caso, simpatia de quem está com mais dificuldade na matéria ou não tem podido estar presente. Um sábado houve futebol oficial, o professor foi avisado, foi ver o jogo, o campo não tem bancadas as cadeiras levam-se de casa, o professor não sabia, mas não esteve muito tempo em pé.

Pergunta agora o professor, a ele próprio, porque é que vem enfiar-se no meio da selva a dar aulas de informática. Estas não lhe dão nenhum gosto particular, quando pela manhã e pelo início da noite caminha pela estrada de terra em direção à escola, não leva nenhum entusiasmo especial. Inicia a aula e começa logo a contar o  tempo, à espera que a hora e meia passe depressa. Já sabe que vai sair cansado de repetir a mesma coisa inúmeras vezes e irritado pelas razões acima apontadas que não consegue ultrapassar. De regresso a casa a primeira coisa que faz é abater meio dia no calendário manuscrito que fez e onde o dia do regresso está bem assinalado com um grande círculo à volta. Qual é o gozo afinal, como perguntaria um adolescente moderno perante este aparente masoquismo:

Nem ele sabe bem. Talvez uma forma de estar vivo, de ter ainda algum protagonismo, alguma novidade na vida, sair do conforto rotineiro, fazer qualquer coisa de diferente. Ou talvez por algum feitiço apelativo africano que tenha apanhado nos tempos em que andou por África. Uma coisa é certa, fez um trabalho com pessoas, com um objectivo comum, que por interesses diferentes todos conseguiram atingir, conviveu com gente diversa, tirou umas fotos, escreveu uns textos, aprendeu umas coisas de informática (aprende-se muito quando se ensina), esteve bem hospedado, numa bela casa, com um painel solar, comeu bem, foi bem tratado, não pagou um tusto e ainda lhe agradecem. Existe algum turismo exótico mais barato que este?