Cardus Edição 57, 01-06-2019

Cardus

nº 57

Viver em Cacine

Cacine fica no sul da Guiné-Bissau muito perto da fronteira com a Guiné – Conacri, no estuário do rio com o mesmo nome. É uma vila pequena, tem um pequeno porto de pesca onde todos os dias se pode apanhar o barco que nos leva à outra margem, onde se encontra o Parque Nacional de Cantanhez.

Na crónica de hoje vou guiar os leitores pela vila, uma visita guiada na qual não vão ver nada, apenas ler o que os meus olhos veem, que pela idade que têm já não veem muito bem, algumas descrições poderão estar um bocado distorcidas da realidade. Não me parece que venha algum mal ao mundo por isso, vou começar por onde estou hospedado, um espaço cujo dono trata pelo nome de Nova Jerusalém.

Na casa ao fundo esquerdo vive temporariamente o autor. À direita encontra-se o barracão onde almoça a comunidade que vive neste espaço reservado. Não se veem na foto mas o espaço é partilhado por galinhas e galos que circulam por ele, debicando aqui e acolá, numa perfeita harmonia, apenas interrompida quando um dos galos lhe dá para assediar alguma galinha que, nos casos que observei, acaba sempre com o galo em cima, por mais que a escolhida fuja ou cacareje. Quando o ato (violação, paixão, ou simplesmente amor, não sei qual o termo a aplicar) termina, a galinha sacode as asas, não sei se de felicidade se de alívio. Ao fundo temos a floresta tropical sub-húmida onde, nos dias de sorte, é possível ver pequenos macacos mais afoitos e curiosos. Até se chegar à floresta existe ainda mais uma habitação, ainda em construção. Os caminhos de cimento elevado com conchas são uma inovação local que permite que na época das chuvas se possa chegar às habitações e restaurante comunal sem enlamear os sapatos ou escorregar e cair redondinho no meio do lamaçal.

Um portão de ferro protege a entrada da Nova Jerusalém, que se situa no início da zona periférica da vila. É necessário abrir o cadeado para se ir para a rua e apanhar a estrada de terra que conduz ao centro. Logo à esquerda temos os tanques de água, uma estrutura montada por japoneses, nos tempos em que tinham um contrato de pescas com a Guiné-Bissau. O sistema alimenta algumas torneiras da Escola Betel, do Hospital, da casa do Régulo e da escola publica. É um sistema autónomo, as bombas vão buscar energia a uma central solar instalada no solo junto à torre dos depósitos (60 painéis de tamanho médio).

Andados mais uma centena ou duas de metros e ainda do lado esquerdo temos a escola Betel que é gerida pela Associação dos Amigos das Escolas da Guiné-Bissau, uma escola particular com mais de setecentos alunos, dos quais cerca de trezentos têm as mensalidades pagas por padrinhos ou patrocinadores. Os pavilhões são de adobe e zinco, o tipo de construção generalizado na vila, quase diria em toda a Guiné.

A seguir à escola tem-se o hospital onde não há médicos mas apenas enfermeiros e duas ambulâncias. Em frente à escola e hospital encontra-se um dos muitos poços, construídos com ajuda internacional, nos quais a população se abastece de água. Para extrair água, é preciso dar à bomba, encher um recipiente de vinte litros custa tanto como levantar pesos num ginásio. E há ainda que carregar a água para casa, nem sempre perto, transporta-se na cabeça ou na bicicleta, um ciclista bem treinado, coloca a vasilha no quadro, segura com uma mão, guia com a outra e dá ao pedal com os pés que ainda ajudam a manter a vasilha alinhada na posição correta. É um exercício completo, faz-se braços a dar à bomba e pernas a dar ao pedal, afina-se o equilíbrio quando se conduz. No outro lado do mundo (no grande consumo) paga-se para fazer isto e nem a energia produzida se aproveita.

Temos agora à nossa frente a ponta do V de onde partem as duas avenidas que vão dar à beira-rio. Vamos pela da direita ladeada de goiabeiras majestosas e outras árvores de grande porte das quais desconheço o nome. Vamos, mas vamos com cuidado e muito atentos, nomeadamente às motas, as senhoras da estrada. Deste lado do mundo o pedestre é o último da escala de direitos. É ele que tem de fugir e dar uma boa largura de estrada ao carro ou mota que se aproxima. Mais, deve fugir para o pior lado da estrada, a parte melhor é reservada ao motorizado, que isto de conduzir em estradas de terra não é fácil. Os carros são poucos, motas e bicicletas são a maioria, animais também usam a rua e também têm um grande respeito pelos motorizados. Não é por nada mas adorava ver um carro autónomo da Google a atravessar a rua principal de Cacine na hora de maior movimento. Qualquer motorizado quando passa por alguém buzina, leia-se “olá, bom dia” não é para as pessoas se afastarem, esta parte está, à partida, garantida.

O primeiro edifício a destacar é a mesquita oferecida pelo estado de OMAN segundo leio nos placards enferrujados. Estamos no Ramadão, a horas certas da noite, ouve-se a voz arrastada que chama os fiéis à oração. Cacine é a vila das três religiões que coexistem em perfeita harmonia e até colaboram. Quando um pastor evangélico chegou ao local para iniciar a sua igreja foi ajudado pelos muçulmanos, o mesmo pastor ajudou depois a igreja católica quando esta decidiu construir no local uma missão.

Mais alguns metros e passa-se pela casa do artista da terra chamado Tomás Queita (Nhama). Produz escultura, pinta e é diretor dum grupo de teatro tradicional. Tem uma gaiola com um porco espinho. Este está domesticado, não faz mal a ninguém, podia andar solto, mas não pode porque tritura tudo e mais alguma coisa, a casa está velha, se algum barrote mestre é triturado a casa pode cair.

Temos agora a casa do régulo, a autoridade tradicional da zona, reconhecida como tal. A sua casa não difere das outras não tem seguranças à porta quem tiver necessidade ou assuntos a tratar, entra e fala. Um cantor popular da Guiné (Binham Kimor) tem uma canção que diz que quem governa bem não precisa de segurança.

Mais à frente encontra-se uma casa em construção. As casas aqui são grandes nada a ver com as palhotas miniatura dos livros exóticos. A casa é para a família, ninguém constrói uma casa só para ele. O modelo é universal, um grande retângulo muito dividido internamente com uma cobertura de zinco que inclui uma varanda a toda a volta. As casas são de adobe, produto inesgotável da terra e as armações para suportar o telhado são de pau de palmeira ou sibi. Não há serrações em Cacine, para ter traves mais ou menos direitas há que escolher as arvores apropriadas e dar ao machado no sítio certo. As portas e janelas são de madeira tosca, não é preciso ficarem bem encaixadas, aqui não se conhece o frio, os espaços abertos à volta das janelas e portas até facilitam a circulação de ar, uma pequena comodidade nas horas do grande calor. Não fora o zinco e os pregos, únicas partes para as quais é mesmo preciso dinheiro para importar e teríamos a Guiné autossuficiente em construção de habitações.

Mais ou menos a meio da vila encontra-se uma torre metálica com umas antenas no topo. É por aqui que se tem acesso ao outro lado do mundo, é por aqui que Cacine comunica com o exterior. Toda a gente tem telemóvel, esta tecnologia fez um bem inestimável à vila. Antes da torre nem posto público havia, quem queria telefonar teria de ir à vila mais próxima, umas dezenas de quilómetros pela estrada de terra que poderia ficar bloqueada se chovesse intensamente durante uns dias, o que sempre acontece. Também não há correio, o posto dos CTT está fechado há muito tempo, aliás, alguém me disse que o serviço de Correio não existe na Guiné, toda a gente comunica por email. O telemóvel tem ainda uma pequena maravilha – a lanterna – que permite que se possa circular à noite pelos sítios onde a iluminação pública não chega. Esta é autossustentável, cada poste tem um painel fotovoltaico, durante o dia carrega a bateria, à noite aquela alimenta a lâmpada. O sol é o grande fornecedor de energia elétrica da vila.

Pelas ruas de Cacine circulam pessoas e animais estes todos tem dono embora circulem livremente e durmam ao relento. A maior parte são galináceos, cabras e vacas, cães e gatos vêem-se poucos, porcos um ou outro. A terra é argilosa o que quer dizer que na estação seca produz pó que na estação das chuvas vira lama escorregadia. Neste momento estamos na estação seca, pó vermelho por todo o lado, nos telhados de zinco, nas roupas, nos sapatos, nas bicicletas, nos carros, na mobília. Não vale a pena lutar contra ele, estranha-se ao princípio, entranha-se uns tempos depois como diria Fernando Pessoa. Os meus sapatos já mudaram de cor, em vez de graxa têm pó acumulado, algum já bem entranhado, acho que nunca mais vão voltar à cor inicial.

Sem qualquer indicação visual é possível identificar uma caserna e um abrigo em ruínas quase a chegar ao porto. Pertenceram à tropa portuguesa, não deixaram muitas recordações aos locais e provavelmente nem aos portugueses. Foi aqui, no sul da Guiné, que a guerra da independência foi mais intensa, aqui se realizaram os maiores combates. O comandante militar não autoriza fotos, já tem alguma idade, ainda viveu no tempo colonial, ao contrário da população mais jovem, que não sabe o que foi a guerra.

No fim da rua aparece-nos então o porto com um pequeno pontão que só tem água por baixo quando a maré está alta. Para entrar e sair do barco há assim que descalçar os sapatos e enterrar os pés no lodo, alguns cavalheiros simpáticos levam as senhoras às costas. Pequenas traineiras em terra firme esperam pela maré alta para se fazerem ao rio e à pesca.

Junto ao porto e para o lado esquerdo existem umas pequenas instalações de frio pertença duma empresa coreana que o estado guineense licenciou para atividades de pesca. Antes dos coreanos a pesca estava entrega a japoneses, segundo o povo, bem melhor que agora, os japoneses fizeram alguns melhoramentos na vila (tanque de água), e deixavam algum peixe, agora segue todinho para a Coreia.

Regressemos então à Nova Jerusalém pela outra rua. Não há muito a dizer, ao princípio aparecem umas lojas onde se vende artigos básicos, panos e cartões de telemóvel. Mais à frente encontra-se o campo de futebol, onde às vezes e ao sábado joga o Cacine que milita na segunda divisão do país. De resto são casas e mais casas, adobe e zinco à fartura, a cor generalizada é a do pó pousado ou no ar, quando passa algum carro.

E mais uns metros passamos pela missão católica murada com grades com um grande letreiro junto à entrada: “nem só de pão …”

E pronto, terminou a visita guiada, estamos de novo em frente ao portão da Nova Jerusalém. Não há muitas fotos, um tuga a passear pela vila já dá nas vistas, a tirar fotos dava muito mais e ele gosta de discrição.

E como é, então, viver em Cacine?

Viver em Cacine é como viver em qualquer outro lado com as facilidades e dificuldades, com os prazeres e desprazeres do lugar. A vida faz-se dia a dia, todos as noites adormecemos e acordamos no dia seguinte, fazemos isso desde que nascemos. Um dia adormecemos e … aqui cada um tem a sua crença, há quem ache que tudo acabou, há quem ache que a vida continua num outro lugar com outras formas e outras companhias. Ninguém sabe, enquanto estamos acordados fazemos por ter uma vida o mais confortável que nos é possível. É isso que procuro fazer nestes dois meses que estou a viver em Cacine. Para já, tudo bem. Não há álcool por aqui, como fruta da terra, protejo-me do sol e dos mosquitos, descanso nas horas de calor, trabalho nas horas mais frescas (menos quentes), até agora a máquina física tem funcionado sem alterações. Aos fins de semana dou umas caminhadas e voltas de bicicleta, preparo a semana seguinte. Circula-se sem problemas, toda a gente sabe que anda um tuga inofensivo por aí. É assim, vive-se em Cacine como se vive noutro lado qualquer, para viver só é preciso estar vivo, ou como disse uma figura muito conhecida da socialite portuguesa, estar vivo é o contrário de estar morto.