Cardus Edição 56, 15-05-2019
nº 56
De Lisboa a Cacine
Para ir de Lisboa a Cacine começa-se por ir de avião até Bissau pelo que é necessário apanhar o voo TAP1547 no aeroporto de Lisboa. Como há bagagem de porão há que fazer o drop-in, que agora é maquinado, já não é uma senhora antipática que nos diz que só se pode transportar 23 kg, é um televisor que nos manda para um guichet ao lado onde a fila de espera já vai grande. Não foi o caso deste viajante, tinha o peso certo mas andou rápido de mais e não extraiu a etiqueta obrigatória de bagagem num quiosque anterior, pelo que voltou para trás se quis continuar no processo maquinado, a automatização não permite atalhos ou alterações do processo. No drop-in há que mostrar (à máquina) o boarding pass que agora está no telemóvel, e que deu inválido, uma pequena preocupação que logo desapareceu quando se reparou que era outro e não aquele, que era dum voo anterior. Com o documento correto a máquina deu luz verde, a mala começou a rolar, mas pouco, parou, o televisor ficou vermelho, uma mensagem indicava que a bagagem não tinha sido processada, favor contactar o agente de serviço. Uma espera que o senhor acabasse de resolver um problema de excesso de peso, quando disponível riu-se, mandou a mala para trás, deitou-a, agora sim, luz verde e o televisor a desejar boa viagem, provavelmente algures dizia que as malas devem ser colocadas deitadas, o viajante, cego, não viu nada. Próxima paragem na polícia, aqui cumprido o ritual habitual, tudo correu bem.
Descoberta a porta de embarque, mais uma fila, agora há que encaixar a mala de bordo numa armação, se não couber vai para o porão, com o risco de chegar mais tarde a Bissau, conforme é dito alto e a bom som por alguém a quem não foi preciso fazer o teste tal era o tamanho da mala que transportava. A deste viajante entrou à justinha, vai com ele, já não chega a Bissau só com o que tem vestido e a mochila com o PC.
No voo para Bissau tudo normal, perto do fim o avião foi desinfetado, obrigações do serviço internacional, segundo informa o locutor de serviço.
O aeroporto de Bissau é um aeroporto simpático, como normalmente é tudo o que é pequenino. Não tem aviões estacionados, o que chega sai logo a seguir, deixa o aeroporto vazio. Os passageiros saem do avião e vão a pé até ao edifício do aeroporto, passam na polícia e entram diretamente na sala de recolha da bagagem onde os privilegiados encontram já a pessoa que os vêm receber, que assim ajuda na recolha da bagagem e mesmo na alfândega onde com sorte até se passa sem abrir as malas como foi o caso deste viajante.
Do aeroporto a Bissau é menos de uma dezena de quilómetros por uma grande avenida que desemboca no centro. Chegou-se já de noite, a cidade tem muita vida onde há luz, mais abundante junto à iluminação pública, cada poste é um ponto de reunião, de conversa ou de venda. A casa onde o visitante vai dormir na primeira noite é uma casa particular, perto do centro, emprestada à associação com que o voluntário vai colaborar, que é usada quando é necessário vir a Bissau. Normalmente o visitante acorda ouvindo o roncar madrugador de comboios e automóveis, desta vez a música foi diferente, mais alegre e natural, chilrear de passarinhos, galos a cantar e galinhas a cacarejar, todos eles numa grande concorrência vocal.
No dia seguinte vai iniciar-se a viagem até Cacine, antes é necessário trocar dinheiro, comprar algumas provisões e arranjar um cartão de telemóvel, hoje em dia uma peça fundamental da vida. Este foi logo resolvido pela negativa, aos fins de semana as lojas do operador estão fechadas, a única possibilidade era comprar em Cacine onde é possível. Trocar dinheiro foi fácil, no escritório dum supermercado, o lugar mais discreto que foi possível arranjar. No mesmo supermercado foram compradas algumas provisões, em Cacine só existe uma padaria e uma mercearia pequena.
São cerca de duzentos e sessenta e seis quilómetros de Bissau a Cacine. A estrada começa com asfalto esburacado e vai piorando, embora com algumas melhorias em alguns troços. Os últimos setenta são de pura picada de terra batida, muitos buracos, altos e baixos, ladeada de selva tropical. Passa-se por muitas povoações regra geral constituídas por grandes pavilhões de adobe e tetos de palha ou zinco. Muitas mangueiras e cajueiros, as maiores mangueiras são centros de convívio (conversa), debaixo das respetivas copas veem-se cadeiras e pessoas sentadas na conversa ou descansando. Nas zonas de estuário veem-se campos de arroz, divisões tipo salinas, nesta altura secos e sem cultura, uma vez que se está na estação seca. Muito pó, o cruzamento de viaturas implica, regra geral, uma perda grande de visibilidade devido ao pó. Os jeeps das Nações Unidas são os mais modernos, os que mais rápido circulam, os que mais pó produzem. Independentemente do tipo de estrada e do estado em que está, há que pagar portagem, o posto de pagamento encontra-se mais ou menos a meio do trajeto.
No fim da picada e depois de cinco ou seis horas de viagem agitada entra-se então em Cacine onde tudo termina, a estrada e a viagem. Uma casa rica (face à zona) vai acomodar o voluntário durante os dois meses de estadia. Uma boa sala com kitchenette (com fogão a gás), um quarto e uma casa de banho privativa e espaçosa. Luz elétrica proveniente de painéis solares, cuidadosamente consumida, para não se ficar às escuras. Frigorífico não há, esquentador também não, este último não faz mesmo falta nenhuma.
Como é Cacine, como é viver aqui, fica para de aqui a quinze dias.