Cardus Edição 55, 01-05-2019

Quem quer ser milionário (versão anos 50)

A foto da quinzena tem mais de sessenta anos. O edifício é uma capela onde acabou de ser realizada uma missa. A povoação chamava-se Cuanza, por estar junto ao rio do mesmo nome, no local onde o Caminho de Ferro de Benguela o atravessa. O país, na altura colónia, é Angola.

A capela não servia só para práticas religiosas, estas aconteciam apenas ao Domingo. Nos outros dias fazia de escola primária, onde uma professora lecionava, em simultâneo, a primeira, a segunda, a terceira e a quarta classe. Os alunos não eram muitos, na quarta classe eram apenas dois: um, morava na vila, o outro, mais longe, a cerca de quatro quilómetros depois de se atravessar a ponte, no chamado partido do CFB. O que morava na vila tinha algumas dificuldades na aprendizagem, o do partido menos. Chamemos-lhes, para facilitar a escrita, ao da vila, o Urbano, ao do partido o Chico. O Urbano e o Chico eram bons colegas.

O Chico, pedalando no regresso a casa passava sempre pela frente da casa do Urbano. E, muitas vezes, principalmente lá para o fim do dia, reparava nele, sentado ou deitado, sempre com um livro aberto à frente dos olhos, que provavelmente alguém o mandava ler ou estudar. Não se sabe se lia, ou estudava, ou se tinha só o livro aberto e o espírito ocupado com outras ideias ou pensamentos. Apenas se sabia, ou via, que ele olhava para o livro aberto à sua frente.

Nesta altura, não é possível dizer como a professora geria as quatro classes em permanência. Do que o autor apenas se lembra, é que, às vezes, havia chamadas, pelo menos para os da quarta classe. Nestas alturas os dois representantes eram chamados para junto da professora e iam respondendo às perguntas desta, olhos nela e na palmatória, o terrível objeto para castigar os ignorantes ou os preguiçosos. Um dia veio a pergunta que o autor não esqueceu: “Como se chamam as pequenas porções de água que aparecem nos desertos?”.

Quem deveria responder era para quem a professora olhava. Desta vez olhou para o Urbano que, como quase sempre, não fazia a mínima ideia do que se estava a perguntar. Às vezes quando não sabia, inventava, mas desta vez optou por não dizer nada, fingiu procurar uma resposta que desconhecia. O Urbano não era grande ator, quer a professora quer o colega sabiam que ele estava apenas a queimar tempo. A professora esperava, o Urbano não se descosia, o ambiente na sala era duma tensão crescente. O Chico sabia que a pergunta, mais minuto menos minuto, viria ter consigo. E também não fazia a mínima ideia da resposta. Conhecia, contudo, a palavra oásis que sabia ligada ao deserto, mas que não sabia o que era. Podia ser um camelo, um vestido ou outra coisa qualquer, o quê não sabia. A tensão sempre a subir, a professora de semblante severo, ao fim duns intermináveis minutos, encaminhou o olhar para o Chico, era agora a sua vez de responder. Todos os olhares concentrados no Chico, a professora, o Urbano e toda a classe que o Chico não via, mas sentia.

Provavelmente o suor escorria-lhe pela testa, não sabia o que fazer, se largar o oásis, que lhe poderia valer  a desilusão de toda a sala, se ficar como o Urbano, isto é, caladinho e não dizer nada. Não conseguiu suportar a tensão da sala, com o medo e a incerteza estampada nos olhos, a palavra “Oásis” soltou-se e saiu-lhe pela boca fora.

Nem foi preciso esperar pela última sílaba para saber que tinha acertado. Os olhos da professora não enganavam ninguém. A resposta estava certa, a professora sorriu aliviada, o Urbano encantado, a turma respirou fundo. A atmosfera descomprimiu instantaneamente. Os dois foram mandados para o lugar, a chamada do dia estava terminada, um alívio para todos.

Desse ano letivo o Chico não se lembra de nada, nem dos colegas, nem dos nomes, apenas se lembra do nome da professora e da pergunta cuja resposta era “oásis”.

No final do ano chegou o inspetor, o tal que iria confirmar quem passava ou reprovava. Na quarta classe estavam, agora, três tensos: o Urbano, o Chico e a professora, que não queria ver nenhum dos seus pupilos reprovado. O inspetor era pessoa pachorrenta, chamou os dois desgraçados, professora ao lado, e foi fazendo perguntas ao Chico e ao Urbano. Não sei se minto se disser que deu o exame por terminado logo que recebeu a primeira resposta certa. Os dois saíram, na sala de culto ficaram a professora tensa e o inspetor descontraído. Passado um bocado saiu a professora, sorriso nos lábios. Virou-se para o Chico e disse: - passaste! O Urbano meio angustiado olhava para a professora, à espera de saber o resultado que tardava. Acabou por vir, uns segundos enormes depois, também com um sorriso: também passaste! Passaram os dois!. Os três abraçaram-se, eram apenas três seres abraçados.

O Urbano foi a correr para casa dar a grande novidade, o Chico fez o mesmo, pedalando para o partido. Perto da noite, apareceu-lhe o Urbano em casa, onde nunca tinha estado. Tinha vindo de bicicleta, queria estar mais um pedaço com o colega com o qual tinha tirado a quarta classe. Toda a família do Chico gostou do ar realizado e esfusiante do Urbano. Não sei se ficou para jantar, se não ficou não foi por não ter sido convidado. Tudo dependeu de a bicicleta ter dínamo ou não. Se tinha, ficou para jantar, se não tinha foi-se embora mais cedo, era perigoso pedalar às escuras nas picadas do mato.

O Urbano e o Chico nunca mais se viram. O Chico ainda foi fazer o exame de admissão a Silva Porto para a Escola Industrial. A professora foi com ele e ficaram os dois hospedados na casa do irmão dela que era enfermeiro. O Chico passou no exame de admissão, continuou a estudar, o Urbano provavelmente não, já estava pessoalmente realizado com o seu diploma da quarta classe.

Por razões difíceis de explicar, há memórias simples que nem o tempo consegue apagar.