Cardus Edição 54, 15-04-2019
De Lisboa a Gotemburgo
De Lisboa a Gotemburgo pode ir-se de muitas maneiras, a mais usual é apanhar dois aviões, com o primeiro a fazer escala algures na Europa Central. No caso desta crónica a viagem foi diferente, de avião de Lisboa a Oslo e daqui até Gotemburgo via autocarro.
O aeroporto de Lisboa é como todos os outros, muitos guichets, fardas, escadas rolantes, balcões de check-in, quiosques, lojas de luxo ou aparentadas, e um constante rodopio de gente de e para as portas de embarque. Diz-se que está congestionado, às cinco da manhã quando chegou este pequeno grupo de viajantes, efetivamente já se corria por todo o lado e já havia fila na polícia, por onde todos passam e onde há que abrir as malas e retirar do corpo tudo o que é metálico incluindo o cinto. A maior parte dos viajantes são turistas, nota-se nas vestes (algumas a pedir lavandaria urgente) e no ar descontraído, também nos grupos tipo rebanho com o pastor e a bandeirinha identificadora. Uma grande mistura de línguas, a castelhana sobressai de todas as outras, os falantes fazem-se notar por todo o lado onde passam. O avião para Oslo atrasou ligeiramente, há que esperar que o controlo abra e depois, já no corredor, esperar que o autocarro apareça. Já com o autocarro parado e com o avião à vista, há que continuar a esperar, agora, que a porta se abra. Nada a fazer, os aeroportos são todos assim, saber esperar é uma caraterística que todo o viajante de avião deve ter.
Os aviões também são todos iguais. Um ou dois corredores centrais, bancos dum lado e doutro, à entrada, agentes fardados com um sorriso trabalhado dão as boas vindas aos viajantes. E a rotina continua, colocar malas nas bagageiras, sentar, apertar o cinto, ouvir as eternas regras de segurança e ver os pobres fardados repetirem pela enésima milésima vez na vida, os gestos do apontar as portas de emergência, simular a queda das máscaras, pôr a máscara no nariz e enfiar o colete de segurança. Apenas duas curiosidades no avião para Oslo: primeira, o avião não ia cheio pelo que foi possível escolher lugares, o que não era permitido no check-in online a menos que se pagasse um excesso (invenções das viagens de baixo custo); segunda, as cadeiras deixaram de rebater, já não é possível fazer aquele movimento simpático de atirar as costas para trás e ficar com o apoio do pescoço junto ao nariz do parceiro de trás.
São quatro horas de viagem até Oslo, a refeição a bordo anima um pedaço o ambiente, o resto do tempo é arranjar maneira de o passar, neste caso começar a esboçar esta crónica, que tem de ir para a nuvem (a virtual) daqui por dois dias. Ainda há tempo para ler uma revista da terra (de partida) e a crónica duma viajante frequente e entradota que termina com este parágrafo espetacular: um dia também seremos assim, sem alma, só alegria primaveril e plástica. Deixo à imaginação do leitor descobrir ao que a cronista se referia. Finalmente o comandante anuncia que vamos começar a descer para Oslo (seis graus Celsius), há que fechar o PC, meter tudo na mochila, apertar o cinto e aguardar que o avião pouse em terra firme.
O aeroporto de Oslo tem a vantagem de não ser muito grande, sai-se do avião e chega-se rápido à saída, desta vez não há polícia para a revista. A viagem agora é em terra firme, num primeiro autocarro que nos leva do aeroporto até ao centro de Oslo (Bus terminal), após duas horas de espera deambulando pelo aeroporto e aproveitando o tempo para alimentar o estômago com comida rápida, esta também igual em todos os aeroportos.
A paisagem é agora corrida, acabaram-se as nuvens e as nuvens, tem-se agora autoestrada. Pela janela vão passando muitos pinheiros, muita pedra e alguns espaços abertos com terrenos de cultivo, esporadicamente passam pequenas povoações. Está tudo seco, a primavera ainda não começou, o verde da minha imaginação, provavelmente vem mais tarde. À medida que o autocarro se vai aproximando do centro de Oslo, começam a aparecer os prédios, quanto mais perto mais agarrados uns aos outros.
A aproximação ao centro faz-me Oslo parecer uma cidade pequena, que provavelmente é. No terminal de autocarros, apenas houve que mudar de uma linha para outra e esperar quinze minutos pela partida, agora confortavelmente instalado no primeiro andar do veículo, com cadeiras rebatíveis. Os terminais de autocarros são lugares de muita gente, viam-se poucos noruegueses, muitos indianos e africanos.
De Oslo a Gotemburgo são cerca de trezentos quilómetros que o autocarro faz em menos de quatro horas, com algumas paragens pelo meio. Sai-se de Oslo por três longos tuneis, quando se volta à superfície a paisagem não mudou, continua no cinzento, pinheiros, campos secos e a omnipresente pedra. Tempo então para rebater a cadeira e tentar recuperar algum sono atrasado, não muito mas algum.
Finalmente entra-se em Gotemburgo, a cidade da Volvo, estamos já no fim da tarde. No terminal de autocarros dois sorrisos aguardavam os visitantes: estes, agora, não eram trabalhados nem de plástico – apenas naturais, simples e familiares.