Cardus Edição 53, 01-04-2019

Parque dos Poetas

Em Oeiras, cobrindo a encosta que vai do alto onde se encontra o Oeiras Shopping até quase à beira-rio situa-se o Parque dos Poetas. São cerca de vinte e três hectares de verde, escultura e poesia, estando representados 60 poetas – 50 portugueses e 10 de países ou territórios de expressão portuguesa.

Logo à entrada do lado do shopping encontra-se um conjunto escultórico denominado “encontro de poetas”: uma mesa desarrumada, comida, vinho e livros tudo à mistura, e poetas à volta nas posições mais descontraídas, livres e variadas, desde o que circunspectamente declama versos ao que afaga o cão, ou mesmo o bêbado que aproveita o momento para uma soneca apetitosa. Um ambiente típico de boémia, um estilo de vida muito associado aos poetas, mas que, como tudo na vida, não pode ser generalizado. São nove os poetas, apenas uma mulher, o conjunto já tem uns anitos, se fosse esculpido hoje teria mais com certeza.

Os sessenta génios têm todos um espaço individual (uns poucos esperam ainda pelo dono), uma escultura (que pode não ser a imagem do próprio) e um ou outro poema escrito algures, normalmente em pedra. Pode-se assim estar no espaço de Fernando Pessoa, ou de outro poeta qualquer, e deste espaço ver os outros espaços, não existem barreiras visuais, o Tejo sempre à vista. Camões está no fundo do parque, na sua gruta, bem ao lado da ilha dos amores, onde vivem as suas doze belas e misteriosas ninfas. Quem se cansar dos poetas pode ainda deslocar-se para o Templo da Poesia, um edifício com salas de trabalho, área de exposições, restaurante, auditório e uma grande varanda com vista panorâmica sobre o parque e para além dele desde o rio até ao mar.

Arrisco-me a falar de poesia, para mim é uma forma de dizer muito com poucas palavras. Só não é poeta quem não quer (de poeta e louco todos temos um pouco), basta saber escrever, colocar palavras em posições certas, imbuir uma mensagem ou um drama, e ao ler tudo sair como música que pode ir desde o suave e romântico ao violento e dramático. Claro que esta arte é mais fácil para uns do que para outros, existem assim os génios (sessenta no parque), os menos conhecidos, mas que também publicam e o grosso da multidão que são aqueles que escrevem, mas não publicam, apenas alguns lêem. A poesia pode ainda ser terapêutica, há quem consiga aliviar os dramas da vida, escoando para papel os mistérios que lhe vão dentro.

Quinta feira passada foi inaugurado mais um espaço, desta vez dedicado à poetisa angolana Alda Lara, que fica assim a representar a poesia de Angola no parque. Em pleno usufruto do privilégio de reformado vivo, aproveitei a tarde para visitar o parque e assistir à cerimónia marcada para as dezassete horas. O ponto de encontro era no templo da poesia onde a partir da hora marcada começaram a chegar os convidados, uma verdadeira feira de vaidades. Sentado na borda dum canteiro, pude assistir ao espetáculo, digo, apenas, que a diversidade era enorme, não só na cor da pele (o facto de a poetisa ser angolana deve ter ajudado bastante), como também no vestir (eles encafuados num cinzento corporativo, elas mais diversas, mais exuberantes, mais garridas, muito vermelho, principalmente nas  faces, poucos em traje desinibido, um rasta no meio da confusão), no género, na idade (a pré-terceira idade em força) e no volume (uma grande proeminência de redondos/as). Pouco conhecedor dos importantes da terra, apenas reconheci o presidente da câmara, que uma vez chegado e cumprimentado os presentes, iniciou então um pequeno passeio em direção ao espaço de Alda Lara, com paragens esporádicas, nomeadamente no labirinto, sempre seguido, à distância regulamentar, pela prole da diversidade. Junto a Alda Lara encontrava-se a cantora africana MAIMUNA JALLES acompanhada de três músicos que, uma vez chegado o cortejo e no tempo certo, começou a interpretar canções de Angola, no programa estava uma inédita baseada num poema muito conhecido da homenageada, a “MÃE NEGRA”. Infelizmente já não assisti a esta parte, só ouvi a primeira canção, a responsabilidade social para com a segunda geração, obrigou-me a abandonar a cerimónia.

Alda Lara é uma poetisa conhecida nomeadamente por quem viveu na Angola colonial. Viveu apenas trinta e dois anos, tinha a poesia como escape. Após a sua morte prematura o marido coligiu e publicou alguns dos seus poemas, a escolha é do marido, não da autora. Tenho a segunda edição dessa coletânea (Editora Imbondeiro, 1967), devidamente encadernada e em lugar destacado, como não poderia deixar de ser.

Como disse estão homenageados no parque dez poetas, que não sendo portugueses, pertencem, contudo, ao espaço da lusofonia, um espaço vivo e universal, felizmente livre das regras e modelos do grande consumo: uma mina de temas de inspiração para estes textos, assim não apareça nenhum mais relevante ou interessante.