Cardus Edição 52, 15-03-2019

La Vecchia Signora

Olá! Sou eu! Chamo-me Vespa, também há quem me chame a 125.

Vou aproveitar este jornaleco para falar de mim, estou abandonada numa garagem há não sei quantos anos, ninguém me liga, é uma maneira de mostrar que ainda existo, acho também que vão gostar da história que vos vou contar.

Nasci na Itália, em 1981, numa fábrica localizada em Pontedera que pertencia à empresa Piaggio & Co., SpA., mas estou registada em Portugal, na Conservatória do Registo Automóvel em Leiria.

A minha família é muito grande, está espalhada pelo mundo inteiro e todos os dias é aumentada. Os tempos agora são muito diferentes da altura em que nasci, por exemplo, fui a última a sair com assentos individuais para o condutor e passageiro, agora o banco é corrido, as pessoas gostam mais assim, agarram-se melhor, mas cá para mim perdeu-se um bocado da nossa beleza tradicional. Fui das primeiras a vir equipada com bateria, que não servia para grande coisa, apenas para regularizar a luz do farolim e ter luz de parqueamento que nunca era utilizada porque mandava a bateria abaixo. Talvez por isto o meu amo, na primeira oportunidade, livrou-me deste empecilho, não servia para nada e incomodava-me o fundo das costas do lado esquerdo. Hoje as baterias têm mais utilidade, servem para o arranque, no meu caso é preciso dar ao pedal tantas vezes quantas as necessárias até eu resolver pegar. Às vezes faço as minhas partidas, não pego à primeira, nem à segunda, só quando o condutor já sua por todo o lado é que acordo e, mesmo assim, ainda bocejo durante uns minutos, para grande expectativa dele não vá eu adormecer novamente. Claro que sou um bocado seletiva nestas partidas, só mesmo quando não vou à bola com as pessoas é que as faço, normalmente a minha resposta é imediata, assim haja gasolina no depósito e faísca na vela. Uma coisa que faz a grande diferença para as outras famílias das duas rodas é que nós não temos corrente, uma coisa muito feia, suja, chata e barulhenta. No nosso caso o motor liga diretamente à roda que é muito mais engenhoso e eficaz, desequilibra-me é um bocado as costas, foi complicado ao princípio, mas agora já estou habituada. Outra coisa, que também só nós é que temos, é o chamado pneu de socorro, muito importante no antigamente nas viagens longas. Também fui a última geração a vir sem piscas, que apareceram depois, comigo é necessário levantar o braço para indicar mudança de direção. Ainda, o combustível para mim tem de ser gasolina com chumbo com 2% de óleo, como era normal quando nasci, mesmo assim já muito avançada pois a mistura geral era a 5%.

Como disse nasci na Itália, mas rapidamente fui parar a Leiria (Portugal, vejam só) onde estiva exposta num stand chamado Lubrigaz, um certo tempo não me lembro quanto porque ainda era muito nova. Foi aqui que o meu futuro amo me descobriu e me comprou, é assim, nós Vespas somos compradas, não temos direito de escolha, quem nos compra é quem nos leva, resta-nos ter sorte com o que nos sai na rifa. No meu caso não me posso queixar muito, o que me calhou é pessoa difícil, mas sempre me tratou bem, até hoje nunca me abandonou, não me tem só a mim, mas também não podemos querer tudo só para nós, certo? Tem alguns problemas com a família, a imagem dele parece-me que é má, chamam-lhe muitos nomes, o que mais oiço é “O Trombas”, até eu já me habituei a tratá-lo por esse nome, como ele não percebe não há problema, ele só conhece a língua dele e mais nenhuma.

Para me ter, o Trombas pagou mais de noventa contos que, na altura, davam para comprar um bom enlatado em segunda mão que era o que toda a gente fazia. Mas o meu Trombas sempre foi diferente, preferiu-me a mim novinha em folha a um enlatado em segunda mão, o que muito me honrou. Houve uma tia que quando soube o que ele tinha pago lhe chamou tonto, mas era tudo inveja, lá na terra dele andavam todos empoleirados numas coisas muito feias e direitas, com rodas grandes e disformes que ainda por cima tinham um trabalhar horrível, faziam mais barulho do que andavam. Quando eu passava, tudo olhava para mim, trabalhar suave, elegância, curvas … os olhos dos mirones não enganavam ninguém: só inveja.

O Trombas afinal andava por África, comprou-me, demos umas voltas, mas abalou novamente para a tal África e deixou-me entregue ao irmão mais novo que vivia com a mãe num lugar chamado Pataias, vejam lá onde esta bela italiana foi parar. Enquanto não abalou, lá fiz algumas viagens com os dois, ele e a mulher, andaram a ver apartamentos à volta de Lisboa, acabaram por comprar um, que viria a conhecer mais tarde, confesso que não gostei nada, quando para lá fui viver. Enquanto o Trombas andou por fora (um anito para aí) lá fui tratando do puto e algumas vezes da mãe dele, apesar de ter sido abandonada, portei-me sempre bem, o que se passou neste anito só eu e o puto é que sabemos, o Trombas não sabe de nada, não é que tenha ficado ofendida por ele me ter deixado, ele não é muito de falas e eu como disse portei-me sempre bem.

Bom um dia lá soube que o Trombas tinha regressado a Portugal, tinha deixado a África de vez. Já sabia que a minha vida ia mudar, fiquei na expectativa do que me iria suceder. Um dia veio-me buscar e lá fui para Lisboa, para a nova vida. Foi então que conheci mais em pormenor a família dele que, claro, passou a ser a minha, engracei com a mulher e com os filhos, estes ainda pequenos, mas muito giros e simpáticos, mal eu sabia o que me esperava. O grande choque foi que comecei a dormir na rua, junto à porta do prédio, mas na rua. Dia e noite ali trancada, os miúdos saltavam-me para cima, aos pulos, mas o que me incomodava mesmo era, já noite avançada, quando vinham os trombudos (o meu Trombas ao pé destes trombudos até me parecia um sorriso aberto) acompanhados dumas criaturas de quatro patas todas empinocadas, que vinham fazer as suas necessidades para cima das minhas pernas. Eu que sempre fui muito comichosa com a limpeza, levava ali com aquele líquido ácido e malcheiroso, camada em cima de camada, sem me poder limpar, felizmente o Trombas deve ter-se apercebido disso, porque um dia levou-me para uma garagem enorme, onde passei então a dormir num cantinho só meu. Provavelmente lá teve de largar mais umas notas pela menina, que ela bem agradeceu, deixou de ver a luz do dia, mas livrou-se dos bichinhos, dos trombudos e dos putos.

Passava muito tempo na garagem, mas de vez em quando o Trombas vinha-me buscar, normalmente aos fins de semana, ia passear a família para a praia de Carcavelos, e não estavam com meias medidas, empoleiravam-se os cinco em cima de mim e lá íamos todos até à praia, o Trombas a guiar, os dois mais velhos á frente, a mulher atrás com o mais novo ao colo. Apesar de toda aquela carga nunca me recusei ao serviço, apenas quando as subidas era grandes, empinava um bocado o que fazia com que a mulher e o puto atrás escorregassem um pouco, mas como já tinham prática, conseguiam saltar antes de se estatelarem no chão.

Nestes tempos fui também usada para testes. O Trombas e o irmãozinho dele achavam que eu também fazia parte da família, o que em boa verdade também não me estavam a fazer nenhum favor, pelo que sempre que havia perspetivas de alargamento da família faziam aquilo a que eles chamavam o teste da vespa. Muito simples, convidavam a interessada para uma voltinha na Vespa, no fim perguntavam-lhe se tinha gostado ou não. Se sim era rapidamente integrada na família, se não tinha um grande calvário a percorrer. A grande maioria adorou, houve uma que ainda não tinha dado a voltinha e já dizia que tinha gostado imenso, apenas uma não gostou, mas não chegou a iniciar o calvário, não demorou muito tempo a pôr-se a milhas para desgosto do que a tinha convidado.

Entretanto o Trombas resolveu acabar uns estudos que tinha começado em Angola, mas que interrompera. Matriculou-se numa escola que parece que se chamava Técnico, onde frequentava umas aulas à noite, já que durante o dia trabalhava. Foi então que passei os melhores tempos da minha vida, plenos de realização pessoal, aquela sensação de dever cumprido que falta agora a muita gente, mas que no meu tempo nos fazia bem.

O Trombas trabalhava na altura num armazém velho e sujo em Cabo Ruivo, apanhava três transportes para chegar até lá, cerca de hora e meia para lá, outra hora e meia para regressar. Com a passagem pelo Técnico, a coisa seria bem pior, à noite os transportes eram mais espaçados, o rapaz ou não dormia ou não estudava, as duas coisas é que não conseguia fazer. Olhou então para mim, eu sorri-lhe e pronto os meus dias tinham chegado.

Manhã cedo o Trombas saltava-me para cima e lá íamos os dois até ao tal armazém em Cabo Ruivo onde ele trabalhava. Deixava-me então num cantinho que ele descobriu muito apertado, mas que dava para os enlatados e os camiões passarem sem me tocarem. Lá ia à vida dele, dizia que ia trabalhar, mas parece-me que aquilo era só conversa, o artista aproveitava o tempo para estudar, a firma estava em fim de vida, o trabalho diminuía todos os dias. Fosse como fosse, às cinco lá me aparecia ele, novamente para cima de mim e lá seguíamos para o Técnico, onde ele passava primeiro pela cantina, donde saía sempre a resmungar (foi sempre muito resmungão) com uma coisa chamada “golpes”, que fazia com que ele perdesse mais de uma hora para jantar, uma eternidade para quem tinha de ter o tempo bem controlado. Depois da cantina saltava então para as tais aulas, que ele a partir de certa altura deixou de frequentar, dizia que ia lá perder tempo, juntava-se então com uns putos que o tratavam por senhor e ficavam a estudar no bar ou em algumas salas que eles encontravam desocupadas. Por volta das onze meia noite vinha ter novamente comigo, pela terceira vez para cima de mim, agora já com menos vigor pois notava-se-lhe um certo cansaço, no regresso a casa tinha de estar atenta, não fosse o rapaz adormecer. Assim que lhe via a cabeça a pender, simulava uma guinada, imediatamente ele espevitava, endireitava-me e lá íamos os dois, com esta técnica consegui que ele nunca adormecesse em cima de mim. Foi sempre muito cuidadoso comigo, não acelerava nem travava bruscamente, tudo calmo, tudo na medida certa, era um prazer ser tão bem tratada, também era merecido, estava sempre disponível para ele, pegava à primeira, nunca lhe negava nada, era só ele pedir, por maior que fosse a subida, respondia de pronto, a minha primeira era muito forte. Chegados ao destino, deixava-me na garagem e ia a pé até ao prédio onde vivia que era ali perto.

Foi assim durante um verão e dois invernos. Claro que só eu e ele sabemos o que passámos, principalmente no inverno, com o frio de rachar, muitas vezes à chuva, que vinha não só de cima como também dos lados (malditos enlatados), coitado andava sempre com os pés molhados, muitas vezes nem chegavam a secar. Uma vez passou-se por completo, felizmente não se zangou comigo, nem se podia ter zangado pois não tive culpa nenhuma, num dia já de noite chovia a cântaros, lá íamos para o Técnico, a estrada era um autêntico lago, acertamos em cheio num buracão na estrada que não se via por causa da água, a minha roda da frente enfiou-se toda dentro do buraco (tenho as rodas pequeninas qualquer buraquinho é para mim um buracão), o pobre Trombas foi projetado para a frente, partiu o pára-vento que ele tinha posto por cima do guiador para se proteger do frio e do vento, e foi estatelar-se no meio do charco, resmungando por todo o lado como é o seu estado normal. A primeira preocupação dele foi levantar-me para ver se estava bem, felizmente estava de saúde apenas com mais uns arranhões, pôs-me em lugar seguro e lá andou uns minutos a apanhar papéis todos molhados com a tinta a desfazer-se, muito preocupado porque parece que eram uns apontamentos importantes que algum dos putos lhe tinha emprestado. Desta vez foram só duas viagens, já não fomos ao Técnico, viajámos logo para casa, o desgraçado além de irritado estava completamente destroçado.

A vida deve ter melhorado a partir de certa altura para o Trombas e família pois além de terem comprado um enlatado novinho em folha passaram a ir passar férias ao Algarve, nunca mais foram a Carcavelos, agora eram gente fina. Alugavam uma casa, perto da praia, levavam uns amigos com eles e andavam por lá quinze dias entre praia, grelhados e comezainas, suecadas e outras coisas do género, contudo sem nada de exageros, o Trombas tinha tudo controlado, ou se não tinha estava convencido disso.

Foi a partir daqui que a minha vida começou a andar para trás. Os meninos simpáticos cresceram e começaram também a saltar-me para cima, o Trombas descontraído porque era tudo em família e ele gostava de ver os putos contentes. Não vou pôr-me aqui a contar tudo aquilo a que fui sujeita, nunca fui de me andar a queixar, digo apenas que só eu sei o que passei, que fui muito, mas muito maltratada. O Trombas sempre distraído, não se apercebeu de nada, até um dia em que resolveu dar uma volta comigo e notou que andava arriada e aos solavancos, coisa a que ele não estava habituado. Quando regressámos a casa examinou-me com todo o cuidado, descobriu que me tinham dado cabo de duas costelas e empenado o eixo traseiro. Ficou bravo, desatou aos berros sozinho (o que fazia muitas vezes), ainda tentou descobrir quem me tinha partido as costelas, mas os putos, quer dizer os rapazes, calaram-se bem calados, acabou por desistir e tratou foi de ver o que podia fazer por mim, sempre foi uma pessoa de grandes sentimentos pelo menos para mim. Ele próprio arranjou maneira de me retirar a coluna vertebral, que levou a um endireita do Olival do Basto, onde me encaixaram uma prótese a substituir as costelas que tinham ido à vida, com o que deixei logo de andar arreada. O meu coração também já não carburava bem, levou-me a um cirurgião de Sintra que me pôs afinadinha. Arranjou-me ainda um vestido novo e comprou-se um par de sapatos também novinhos em folha. Fiquei como nova, quando vinha de Sintra, cantava como antigamente, claro que a idade deixa sempre marcas, mas que me sentia rejuvenescida era um facto.

Por momentos convenci-me que tudo ia voltar aos belos tempos do antigamente, mas, infelizmente, os desgostos sucederam-se. Um dia o Trombas pôs-me ao lado uma alemã, uma coisa muito feia, disforme, toda branca e muito esquisita, tinha uma capota por cima, parecia mais um enlatado do que uma mota. Não achei muito piada a esta atitude do Trombas, fiquei apenas com o consolo de não ter sido trocada, ele quis mais uma, está no seu direito. Também não lhe dava muita atenção, quem se safou bem com a alemã, foi o filho do meio, que na altura trabalhava ou estudava em Lisboa.

Um dia tive o grato prazer de ver o Trombas desfazer-se da alemã, mas foi sol de pouca dura, no dia a seguir entrou-me pela garagem com uma italiana, uma enorme cavalona, uma coisa preta e muito feia, onde eu meço 125 ela mede 1200, o que mais me incomodou foi ouvir a mulher dele (por quem eu tinha uma grande estima) dizer que a dita era linda, não sei onde é que há beleza numa monstruosidade daquelas.

E agora estamos então aqui as duas paradas ao lado uma da outra, a cavalona às vezes tenta meter-se comigo, mas eu não lhe respondo. Apesar de sair mais vezes que eu (aliás só ela é que sai), noto-lhe um ar enfastiado, provavelmente já anda com saudades do primeiro que a despachou (é verdade, já vinha com uma grande rodagem quando o Trombas a comprou). Não sei porque será, contudo, noto o esforço que o Trombas faz para a montar, tem de levantar a perna (o que já lhe é difícil) e passá-la por cima para o outro lado, às vezes só lá vai com uma ajuda da mão, quando se consegue pôr em cima dela, mal chega com os pés ao chão, lá a arrasta para fora da garagem, e lá arranca, fico sempre em sobressaltado até os ver de novo. Quando a cavalona cai, o Trombas não a consegue levantar, tem de ter ajuda de alguém, uma vez deixou-a cair logo à saída da garagem, felizmente apareceu o carteiro que lhe deu uma ajuda. Estas cenas divertem-me um bocado mas tenho de confessar que tenho a sensação que alguma coisa vai mudar. O Trombas tem olhado mais para mim, um dia destes olhou-me demoradamente, fez-me umas festas, apalpou-me a perna de trás (está sem ar) …

… estou cá a pensar que um dia destes o meu trombinhas me vai comprar uns sapatos novos, ainda vamos para a estrada, vou voltar a ver as minhas amigas que andam por aí, dizer-lhes adeus, quiçá, sei lá, às tantas o trombinhas ainda me leva a um encontro de família, daqueles que há por aí, com desfile e tudo, toda a gente a admirar-nos, a mim e às minhas amigas e depois um prémio para a mais bonita, ou a melhor conservada … enfim … sonhos …

Podem talvez perguntar a propósito do que é que eu estou para aqui a contar a minha história, é muito simples, o Trombas tem este compromisso quinzenal, anda com falta de inspiração, olhou para mim e … pronto, aqui está, já que não lhe sou útil nos transportes, ao menos que o ajude nestes textos que ele vai inventando, coitado, tem de se entreter com alguma coisa, também já não tem muito por onde escolher.