Cardus Edição 51, 01-03-2019
Fábrica da Pólvora
A fábrica da Pólvora é um conjunto arquitetónico que a câmara de Oeiras, em boa hora, decidiu recuperar. A fábrica abandonada e em ruínas foi transformada num museu interior e exterior e os espaços envolventes ajardinados e recuperados. A Universidade Atlântica (de que a câmara é acionista) ocupa parte das instalações, mas a presença não é muito notória, a área não tem o ar característico dos ambientes estudantis. Alguns serviços da câmara estão também instalados no local.
O ocre é a cor generalizada, a história da fábrica está por todo o lado, seja nas tabuletas, seja em papel, seja nos próprios monumentos, como o memorial com os nomes dos trabalhadores que morreram nas explosões, 74 até à data em que a fábrica fechou (1972). O lago da foto é um dos ícones do espaço, um autêntico espelho de água nos dias sem vento e ensolarados. Existem ainda um parque para crianças, um circuito de manutenção, pelo menos uma esplanada e um restaurante. É um sítio aprazível, aos fins de semana, nos dias de sol, o espaço está cheio de gente, nomeadamente famílias, que dão muita vida e cor ao local.
Bom, mais informação sobre o espaço pode ser encontrada em muitos lados, nomeadamente na página da câmara, o propósito deste jornaleco não é divulgar o que divulgado já está. Há assim que colocar aqui qualquer coisa de novo, não digo com mais sal, que é um elemento muito importante na comida e na vida, mas com alguma novidade. Vamos então a uma pequena história, um pequeno episódio, nada de especial, apenas para variar um pouco:
Todos os anos passa pela fábrica o festival Sete Sóis Sete Luas, cujo patrono era o falecido escritor José Saramago, com espetáculos de música que começaram gratuitos mas que agora são a pagantes embora a um preço irrisório. Os espetáculos acontecem todas as sextas feiras, durante sete semanas, a partir das dez da noite, demoram cerca de hora e meia, nos meses de Julho e Agosto. Sempre realizados no Pátio dos Enxugos, onde existe uma bancada retratável e onde é fácil e rápido instalar um palco provisório e respetiva aparelhagem sonora. Embora no verão, é conveniente ir bem agasalhado pois a zona da fábrica é muito húmida e ventosa, quem não se precaver o melhor que tem a fazer é deixar a bancada e ir para junto do palco dançar ou saltar, o que não é problema pois a atmosfera é muito descontraída.
O objetivo do festival é divulgar música regional que normalmente não passa nos circuitos comerciais, mas que tem os seus autores e ouvintes quanto mais não seja nas regiões a que estão ligados. O moto do festival é o intercâmbio de culturas, os portugueses vão atuar fora, de fora vêm os que atuam em Portugal.
Aqui há uns anos, atuou um conjunto que vinha da Sicília, com um vocalista sui generis, identificou-se como Ex tóxico dependente, o vício deve ter desaparecido, o aspeto manteve-se. O pessoal que assiste aos espetáculos, é gente simples, sem grandes exigências, bate sempre palmas no fim de cada canção, no final, por melhor ou pior que seja a atuação, os músicos são sempre ovacionados de pé, os artistas ficam encantados com tanta generosidade e simpatia. Com os italianos sucedeu o mesmo, terminada a primeira canção, uma grande salva de palmas, os sicilianos estarrecidos, acabada a segunda, mais uma grande salva mas, para grande espanto dos espectadores, o conjunto abandona o palco em corrida, desaparece pela porta dos fundos, um silêncio enorme e interrogativo fica durante uns minutos no ar. Toda a gente incrédula, o que é que se terá passado, ao fim dum certo tempo lá aparece o chefe da banda, devagarinho, pé ante pé, aproxima-se do microfone e, com um ar muito pesaroso, titubeou numa mistura de italiano e português aprendido provavelmente uns minutos antes:
vocês me desculpem … mas o meu pai … … sempre me disse … filho … quando as coisas estão bem … quando tudo está bem … … … FOGE!.
Como estava tudo a correr muito bem … fugimos todos.
Gargalhada geral, mais uma grande ovação, o espetáculo continuou, o vocalista de português só conhecia o “bom dia” e o “obrigado”, só falava italiano com forte acento da Sicília, mas toda a gente o percebia e achava piada, quando os mais poliglotas riam toda a gente ria. A parte do foge quando tudo está bem, tocou-me pessoalmente, é, efetivamente, muito importante, principalmente na vida, saber parar no momento certo, sob pena de tudo se perder dum momento para o outro. É como no teatro em que alguém disse, “graça, em cima de graça, dá desgraça”.