Cardus Edição 50, 15-02-2019
As águas livres do Tonga
A foto acima tem mais de 55 anos. Foi tirada em Angola no Tonga A, um partido do Caminho de Ferro de Benguela (CFB), logo a seguir à estação de Quinjenje, na direção do Leste.
Chamavam-se partidos aos locais onde se concentravam os serviços de apoio aos perímetros florestais (florestas) em que estava dividida a plantação de eucaliptos do CFB. Nestes partidos existiam normalmente duas ou três casas de habitação para os capatazes, uma cantina de abastecimento para o pessoal e, em alguns mais importantes, podia existir também uma pequena oficina com um mínimo de condições para se poderem fazer pequenas reparações nos camiões de transporte de lenha e nas serras motorizadas.
O Partido da foto era bastante pequeno, havia apenas uma casa para o capataz e uma cubata que fazia de pequeno armazém. Nas florestas, o pessoal nunca estava muito tempo no mesmo sítio, nesta casa, por um período aí duns três anos, viveu um casal e três filhos, o mais velho esporadicamente, porque, como estudava no secundário e a escola era longe, apenas estava em casa nas férias.
Este partido tinha uma pequena maravilha: na parte de trás existia um pequeno tanque, alimentado por água que vinha duma fonte distante (cerca de três quilómetros) através duma vala aberta para o efeito. A água deslocava-se por gravidade, rodeava alguns montes e elevações, mais ou menos a meio havia um pequeno aqueduto de paus e telhas meia cana, que poupou uma boa centena de metros de abertura da vala. Um modelo reduzido do Aqueduto das águas livres com o mesmo objetivo, mas com muito menos comprimento e caudal. Sempre que o abastecimento do tanque era interrompido, havia que ir à procura da rutura, normalmente provocada por animais que desfaziam a vala, ou por alguma telha do “aqueduto” que, entretanto, se partira ou se deslocara.
Naqueles tempos ter água num tanque ao lado da habitação era um luxo, as casas não tinham água canalizada, nem eletricidade, tudo funcionava a petróleo, os frigoríficos, alguns fogões mais avançados (Hipólitos) e os candeeiros (de torcida) que iluminavam as noites. A televisão ainda não tinha sido descoberta, havia era os rádios (alimentados a baterias), onde, nas ondas curtas, nos dias de sorte se conseguia ouvir a Emissora Nacional, com mais sorte ainda o relato do Sporting, com muito mais sorte ainda o som não desaparecia nas jogadas de golo eminente. Nada que também não suceda hoje em dia apesar de todos os avanços da tecnologia. Saneamento não era necessário, na casa de banho havia apenas um lavatório e um escoadouro para as águas. Para os duches, havia um chuveiro composto por um cilindro com um crivo e torneira por baixo, que se pendurava num gancho no teto. A água do banhinho era aquecida no fogão, transferida para o chuveiro e depois vinha a parte mais interessante que era pendurar o chuveiro no gancho. Havia que içar o chuveiro, o que já não era para todos, levantá-lo bem acima da cabeça e, depois, às apalpadelas (o gancho deixava de se ver) tentar enfiar a argola no gancho, uma operação onde era requerida para além da força, muita habilidade e equilíbrio, sob pena de vir tudo parar ao chão, com consequências graves para o chuveiro e eventualmente para o banhista. O risco e esforço dependiam da quantidade de água que se queria para o banho, os fraquinhos tomavam banhos rápidos, os mais fortes podiam estar uns momentos a saborear a água quentinha escorregando pelo corpo. Outras higienes ou necessidades mais íntimas eram realizadas cá fora, num espaço enorme chamado mato, contudo com uma grande privacidade, mirones só mesmo da natureza selvagem.
Como disse atrás, a iluminação à noite era com candeeiros a petróleo que produziam uma luz amarela e fraca, mais tarde apareceram os Petromax que emitiam uma luz branca muito mais forte, mais um grande melhoramento. Nas férias não havia muito que fazer, era necessária uma grande imaginação para descobrir maneiras de ocupar o tempo. Um dos residentes (o tal que só vinha a casa nas férias), olhando para a bica do tanque donde a água saía e caía continuamente, pensou que toda esta energia desperdiçada podia ser aproveitada para a produção de energia elétrica. Imaginou então um sistema em que a água ao cair, acionaria um sistema de pás (tipo nora) acoplado a uma roda que, por meio duma correia, transmitiria o movimento a um dínamo, que geraria a necessária energia elétrica. Uma pequena lâmpada ligada ao dínamo comprovaria que tudo estava a funcionar em condições.
Não foi fácil construir e montar os componentes deste sistema produtor de energia, mas com algum engenho e arte lá se construiu a roda das pás, à base de pau-sesse e cabaças, para correia adaptou-se uma câmara-de-ar de bicicleta, donde também veio o dínamo que era a componente fundamental do sistema. Estes dínamos eram muito populares nas bicicletas, por um sistema de enganche podiam ser encostados aos pneus que os faziam rodar quando em movimento. Os dínamos alimentavam um farolim, colocado à frente, que assegurava assim alguma luz, muito útil nas viagens à noite. Quanto mais depressa rolasse a bicicleta, mais o dínamo trabalhava, mais luz para alumiar o caminho, mais doíam as pernas, mas ninguém se queixava.
Um dia chegou o momento ansiosamente esperado. Tudo foi montado numa tábua, era só deslocá-la de maneira a água cair sobre a posição certa nas pás da nora e ver a pequena lâmpada acender-se, mesmo que o filamento só ficasse vermelho já era um grande passo, o sistema iria evoluir, um dia daria certamente mais luz que os pirilampos, cuja luz era fraquinha e intermitente. Com o coração aos saltos, o conjunto foi deslocado para o sítio próprio e aconteceu tudo muito rápido: a água desatou a saltar por todo o lado, o engenheireco ficou todo molhado, tal como tudo o que estava à volta… as pás não se mexeram … só um pequeno empurrão as fez rodar uns centímetros … nada a fazer … sonho desfeito, sistema retirado, o fio de água, após a turbulência momentânea, voltou a cair tranquilamente da bica para o chão, tudo voltou ao normal, o coração voltou às pulsações habituais. Felizmente ninguém tinha sido convidado para a inauguração, ninguém viu, o inovador livrou-se de andar a ser gozado pela família durante uns tempos. O dínamo voltou para a bicicleta, o inovador descobriu mais tarde que tinha sido tramado por uma coisa chamada inércia.