Cardus Edição 49, 01-02-2019

Rua de São Bento 193

O número 193 da rua de São Bento corresponde à casa onde Amália Rodrigues viveu mais de cinquenta anos e onde neste momento se encontra a sede da fundação e a Casa Museu com o seu nome. A casa está aberta ao público por vontade da fadista, estando o seu interior tal como ela o deixou em 6 de outubro de 1999.

A Fundação é detentora dos direitos de nome e imagem de Amália Rodrigues e compete-lhe gerir este património imaterial de modo a captar apoios e receitas para concretizar a ação de solidariedade social que, por testamento de Amália Rodrigues, constitui o objetivo nuclear da Fundação. A casa museu é mantida pela fundação.

A casa tem cerca de quatrocentos anos, Amália viveu nela mais de cinquenta. A casa começou por ser um prédio de andares que Amália transformou numa casa, do que resultou um conjunto de espaços, escadas e corredores desordenados e desenquadrados, consequência típica da veia de arquiteto que todos julgamos possuir. O círculo de amigos ou conselheiros de Amália continha muitos poetas e escritores, mas, provavelmente, poucos ou nenhum arquiteto.

A casa não tem segurança pelo que as visitas são todas guiadas. Uma das guias viveu na casa muitos anos, pertencia ao staff da artista. Tem muitas histórias para contar, da Amália e não só, a sua própria história é digna de ser contada: veio de Angola expressamente para ver Amália, plantou-se dias seguidos em frente à casa até a deixarem entrar, entrou e nunca mais saiu, o marido foi sozinho para o Brasil, onde compensou as saudades casando três vezes, tantas quantas as que enviuvou.

Pela guia fiquei a saber que a casa, hoje morta, teve muita vida enquanto Amália existiu, além dos residentes que não eram poucos, havia um constante rodopio de gente a entrar e a sair. Hoje apenas se ouve a guia, as perguntas diversas dos visitantes e os fados de Amália debitados em contínuo pelo sistema sonoro da instalação, felizmente com um nível bastante suave.

Há muitas lojas de antiguidades na rua de S. Bento, a casa de Amália está cheia delas. Não há cantinho nenhum onde não estejam jarrões, estatuetas, bonecos, imagens, muitos livros, alguns de grandes nomes da literatura portuguesa, uma Bíblia entre eles. Móveis, cadeirões, cadeiras, mesinhas, tudo de boas madeiras e estilo antigo, enchendo os espaços e cantos. Os vestidos que Amália usava nos seus espetáculos estão espalhados pelas divisões, eram confecionados na casa pelas costureiras que Amália conhecia e chamava. Na sala de jantar, uma mesa posta com toalha bordada da Madeira, pratos, copos e talheres de marcas famosas, espera eternamente que os comensais se sentem e que a refeição comece.

Amália era um ídolo para muita gente, acredito que para estes fans seja uma sensação única estar, por momentos, na casa onde ela viveu, imaginá-la sentada no sofá à conversa com o marido (César), a discutir com a costureira a manga do vestido mais para cima ou mais para baixo, ou refugiada no andar de cima, quando a angústia apertava. Para mim que não sou muito dado a idolatrias, vi apenas a casa, o recheio e o espaço que não me entusiasmaram muito, nem mesmo o jardim das trazeiras onde se pode tomar um café sossegado se não houver muitas visitas.

A visita foi, contudo, uma tarde bem passada, gostei de ouvir as histórias da guia e os comentários jocosos duma senhora de idade (alentejana) que fazia parte do grupo guiado (éramos quatro). O dia também ajudou, o sol quente e brilhante de inverno, que tanta inveja faz a quem vive mais a norte, acompanhou-nos no regresso a casa, mar à esquerda, solinho pela frente a pedir o para-sol, apenas ficaram a faltar os pasteis de Belém à direita, a fila era enorme, a espera demasiado longa para quem não gosta de esperar, é assim a vida, fica-nos sempre a faltar qualquer coisa.

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