Cardus Edição 47, 01-01-2019

Civilização de Lixo

Quanto mais civilizados somos, mais lixo produzimos. Esta aparente contradição é uma realidade, o índice de desenvolvimento dum país poderia ser medido pela quantidade de lixo que produz. Acumulamos tudo e mais alguma coisa, compramos tudo e o que mais houver, é preciso renovar, mudar, transformar, fundamentalmente comprar, o comércio e a indústria precisam de compras para viver, viver é aqui produzir mais e mais, o destino final de toda esta produção é o lixo. Escrevo num computador que vai para o lixo daqui a uns anos, o telemóvel é mais um lixo ainda por cima chato, estou numa caravana cheia de lixo ela própria um monte de lixo. Há ainda a roupa, os livros, os móveis, os eletrodomésticos, tudo é lixo ou vai ser, nós próprios mais cedo ou mais tarde também passamos a lixo. Os centros comerciais deveriam chamar-se centros de lixo ou, talvez, centros de pré-lixo.

Vi em tempos um documentário sobre um homem do deserto cujas posses eram um camelo (para viajar), uma panela (para cozinhar) e uma manta (para dormir), com um ar feliz disse que não precisava de mais nada para viver. O espaço à sua volta estava aberto, limpo, organizado, por momentos tive uma certa inveja da vida do pobre incivilizado.

O lixo não deveria ser um problema, da terra veio à terra volta (como dizia Lavoisier na natureza nada se cria nada se perde tudo se transforma), a realidade é que hoje em dia não se consegue viver sem estarmos rodeados de toneladas de lixo, não vale a pena lutar contra isso, também não vale a pena sonhar com a vida do homem do deserto. A questão hoje em dia é como viver com o lixo, mantendo um mínimo de paisagem, saúde, enfim como organizar os espaços.

Temos dois modelos de arrumação, um a Norte e outro a Sul. A norte o lixo está mais ou menos dissimulado na paisagem, cada coisa no seu lugar, onde há verde não há papeis nem plásticos, a paisagem está organizada, prédio aqui, fábrica acolá, parque mais além, ruas onde apena se vê o asfalto alinhado, tudo muito certinho, calminho e direitinho. Cá no Sul a paisagem é outra, temos tudo misturado, o verde não consegue viver sem a companhia do plástico e do papel, as ruas tem mais lixo que asfalto, a animação é muito maior, são beatas a voar, papeis a rolar, há sempre uma garrafinha de plástico a jeito para fazermos gosto ao pé, os carros vão largando pelas janelas maços amarrotados, cotonetes, o recibo da via verde e até garrafas vazias, uma prática conhecida de um grande dirigente desportivo da terra. Tudo muito movimentado, com muita alegria, muita animação, confusão e desorganização.

Onde é que eu gostaria de viver? Vivo em qualquer lado apenas onde quer que viva procuro tornar a vida o mais agradável possível. E confesso que gostava sinceramente de ver o país mais limpo e arrumado. E é uma coisa que até não custa nada, basta apenas mudarmos algumas atitudes ou hábitos, a maior parte deles até nem temos consciência que os fazemos. As camaras têm investido algum dinheiro na sensibilização das pessoas, como cidadãos participativos também temos responsabilidades, há que criticar abertamente lixo fora do sítio, não devemos desistir à primeira mesmo que a nossa mãezinha seja tratada com nomes menos próprios.

Há hora da saída deste jornal já estamos no novo ano, vamos lá a ver o que ele nos traz, previsões e desejos são coisas que não faltam por aí, pela minha parte tenho esperança que vai haver mais lixo nos contentores e menos fora deles.