Cardus Edição 45, 01-12-2018

Comunidade Ismaili em Portugal

Este conjunto de dois selos foi emitido pelos Correios de Portugal em 7 de novembro de 2007 a propósito do jubileu de sua alteza o Aga Khan. Os selos apresentam vistas do centro Ismailita de Lisboa.

O Centro Ismailita de Lisboa foi inaugurado em 1997 por Jorge Sampaio, na altura presidente da República. É um edifício com mais de vinte anos, que desconhecia por completo, apesar de viver perto há mais de quarenta. Tive oportunidade de o conhecer recentemente em pormenor, daí ter ido buscar esta série para falar dele.

O projeto é um trabalho do arquiteto indiano Raj Rewal a que depois se juntou Frederico Valsasina e o gabinete PROAP este apenas para a parte paisagística. O desenho inspirou-se nos jardins de Alhambra, no Mughal de Fatehpur Sikri (Índia) e no nosso mosteiro dos Jerónimos. O edifício situa-se junto à loja do cidadão nas Laranjeiras, é discreto e baixo, alia a tradição à inovação tecnológica.

Abre-se a porta e entramos logo num grande átrio cheio de espaço, luz e altura. Em frente, um grande jardim interior, visivelmente inspirado no Alhambra, dividido em quatro partes, com pequenos canais onde a água circula permanentemente. As paredes estão quase todas revestidas por mosaicos de diversas cores, em relevo, pareceu-me que todos com o mesmo padrão. Segundo a cultura muçulmana, água e natureza são muito importantes para o recolhimento e oração, o conjunto está cheio destes elementos quer no interior quer no exterior. O centro ocupa uma área de quase dois hectares, dos quais 67% estão ocupados por pátios e jardins, alguns com nomes próprios, os que mais me despertaram a atenção foram o jardim das oliveiras e o jardim dos frutos onde se encontra uma alameda de laranjeiras desde um portão até uma entrada lateral. Uma barreira visual constituída por árvores de grande porte torna o centro ainda mais discreto.

O coração do edifício é a sala de orações onde tive o privilégio de entrar, claro, deixando os sapatinhos à entrada. Como é tradição na religião muçulmana a sala não contém imagens, apenas em dois extremos opostos está colocada uma foto do guia espiritual atual (Aga Khan) quando era mais novo. O espaço é minimalista em ocupação (apenas uns volumes de linhas direitas a servirem de cadeiras), maximalista em área, luz e altura. O teto é composto de trinta e cinco abóbadas de mármore, com um peso de dez toneladas cada, suportadas por uma estrutura bem disfarçada de cabos e varões de aço. Sentados no chão alcatifado pudemos fazer algumas perguntas ao guia. Fiquei assim a saber que os Ismailitas são apenas uma gota de água no universo muçulmano donde descendem e dissidem. A grande diferença para o Islão tradicional reside no facto que o seu guia espiritual está vivo, o que permite que a religião possa evoluir e adaptar-se à evolução da sociedade humana.

O centro pode ser visitado independentemente da religião de cada um. Os jardins estão abertos ao público, apenas há que dar sinal na entrada. Todo o espaço inspira paz e tranquilidade, não há esplanadas nos jardins nem bares no interior, muito menos quiosques de vendas rápidas. Foi para mim uma agradável surpresa descobrir este oásis numa poluição de prédios altos, vias rápidas, ruas movimentadas atoladas de gente cheia de pressa e aos berros umas com as outras.

Fontes: https://lifestyle.sapo.pt/casa-e-lazer/viagens-e-turismo/artigos/os-jardins-do-centro-ismaili-em-lisboa