Cardus Edição 43, 01-11-2018

Albert Schweitzer

Este conjunto de quatro selos foi emitido pelos correios de Moçambique em 25 de novembro de 2013, uma emissão comemorativa dos 100 anos da inauguração do hospital de Albert Schweitzer no Gabão.

De Albert Schweitzer sabia apenas que era médico e tinha um hospital algures no centro de África. Muito pouco, para quem viveu em África mais de trinta anos. Altura, portanto, de aprofundar os conhecimentos sobre esta personagem muito referenciada e homenageada na África central. Aqui fica um resumo do que aprendi.

Albert Schweitzer nasceu em 1875 na Alsácia, uma região da Europa cujos habitantes mudaram de nacionalidade entre guerras. Assim, Albert nasceu alemão, se tivesse nascido uns anos depois (cerca de 45) seria francês. Parece que preferia ser francês, contudo usava principalmente a língua alemã nos seus escritos.

Formou-se inicialmente em teologia (universidade de Estrasburgo, onde depois ficou colocado como professor) e mais tarde em medicina. Nos intervalos aprendeu a tocar órgão (tornou-se um grande interprete de Bach) e tornou-se também um especialista na respetiva construção. Aos trinta anos Albert era um professor conceituado, um músico e interprete reconhecido, já tinha publicado alguns livros e ensaios, entre os quais uma tese sobre a vida de Jesus e um livro sobre “A arte de construir órgãos e a arte de tocá-los”. Digamos que a vida lhe sorria, mas esta felicidade e bem-estar não o entusiasmavam muito.

Ainda hoje se fala pouco em responsabilidade social, há cem anos esse termo não existia. Mas foi por isso e talvez também por influência religiosa que Albert resolveu dar novo rumo à sua vida, concentrando-se no serviço social, na ajuda ao próximo, não podemos ser felizes quando à nossa volta há infelizes, assim justificou a sua decisão.

Começou por tentar realizar alguma atividade na Europa, dedicou-se inicialmente a organizações de apoio a crianças abandonadas, que não o aceitavam muito bem e mais tarde aos sem-abrigo e ex-condenados, onde parece ter feito alguma coisa de útil, mas pouco para as suas ambições.

Um dia veio a grande inspiração, Albert achou que o seu lugar era em África, e como médico, formação que ainda não tinha, pelo que se inscreveu em medicina. Caiu o Carmo e a Trindade, família, amigos e patrões tiveram muita dificuldade em aceitar esta resolução, os alunos de medicina olharam num misto de respeito e ironia para o novo colega, entradote na idade, que partilhava as salas de aula e laboratórios.

Para estudar e viver era preciso dinheiro que Albert conseguia através de conferências e concertos. Conheceu uma colega estudante de enfermagem, que o deve ter apoiado nesta fase difícil de estudante tardio e com a qual viria a casar uns dias antes de marcharem para África.

Terminado o curso e após uma passagem por Paris para completar a formação em doenças tropicais, Albert e esposa, viajaram então para uma missão no Gabão (na altura designado por África Equatorial Francesa) que necessitava de médicos, estava-se em 1913. A missão era em Lambaréné, numa margem do rio Ogooué. As condições de trabalho, bastante precárias, não desmotivaram Albert que dava consultas num galinheiro antigo e fazia medicina com poucos remédios e instrumentos elementares. Atendia mais de 40 doentes por dia a ainda arranjava tempo para pregar o evangelho, aqui com uma linguagem muito própria pois nem os locais falavam francês ou alemão, nem ele percebia o que quer que seja das línguas locais. Com ajudas locais e fundamentalmente com financiamentos de todo o mundo, nomeadamente de fundações filantrópicas, Albert foi desenvolvendo o seu hospital, orientado fundamentalmente para doenças tropicais.

Entretanto rebentou a primeira guerra mundial, um alemão em território francês era considerado inimigo e assim o casal Schweitzer voltou para França não como cidadãos livres mas como prisioneiros de guerra. Esta situação, tal como a própria guerra em si, levaram Albert a refletir sobre a civilização, estando o resultado dos seus pensamentos e conclusões reunidos num livro a que deu o título de Filosofia da Civilização.

Terminada a guerra, Albert voltou a Lambaréné, agora já com uma equipa de médicos e material para um novo hospital, uns quilómetros acima do antigo, tudo pago com financiamentos próprios ou de sua angariação. Manter o hospital também tinha custos que cobria através da venda dos livros que ia publicando, assim como conferências e concertos que continuou a realizar principalmente na Europa.

Não foi uma surpresa ter recebido o Nobel da paz em 1952, também não foi uma surpresa saber-se que o valor do prémio foi investido no hospital, com a criação duma clínica para leprosos.

O hospital tornou-se uma referência na zona e no mundo, por volta de 1962 albergava 350 doentes e famílias e à volta de 150 na colónia de leprosos. 36 médicos e enfermeiras e uma quantidade variável de trabalhadores locais garantiam o funcionamento do estabelecimento. Albert fazia de médico, cirurgião, pastor da congregação, administrador da freguesia, supervisor de edifícios e terrenos envolventes, escritor de livros escolares, músico e, ainda, anfitrião dum número incontável de visitantes de todo o mundo.

O hospital deu um grande contributo ao estudo das doenças tropicais nomeadamente à provocada pela mosca do sono (mosca tsé-tsé).

Na reta final da sua vida Albert foi ainda um grande ativista contra as armas nucleares, em algumas ações teve a comparticipação de mais um Albert, este agora com o apelido de Einstein.

Albert faleceu em 1965 no seu hospital. Os seus restos mortais foram repartidos pelo Gabão e Europa. Em Lambaréné, a pedido das autoridades locais, ficou o seu coração, o resto do corpo provavelmente na sua terra natal. Após a sua morte o hospital passou a ser dirigido pela sua filha Rhena.

Não há bela sem senão, Albert também recebeu críticas, ao que parece a sua medicina era um bocado bruta e a maneira como tratava os nativos, ao que li, também não era das melhores.

Albert foi, também, um pioneiro na educação e formação ambiental. Os animais eram bem tratados no seu hospital, a natureza envolvente era cuidada, e as pessoas sensibilizadas para a importância que estes seres vivos têm na vida dos humanos.

Muito mais haveria para dizer deste grande médico, teólogo, organista e filósofo do século XIX, nomeadamente na parte espiritual que me passou ao lado e onde parece que também há muito para aprender ou, pelo menos, ler. Para quem gostar do tema ou desejar aprofundar os seus conhecimentos sobre esta pessoa singular, deixo dois links de partida, os mesmos por onde comecei esta pequena aventura da descoberta de quem foi Albert Schweitzer.

https://en.wikipedia.org/wiki/Albert_Schweitzer
http://hekint.org/2017/02/23/the-albert-schweitzer-hospital-in-lambarene-gabon/