Cardus Edição 42, 15-11-2018

Serpa Pinto

O selo desta quinzena foi emitido pelos CTT em 14 de abril de 1980, integrado na série Europa, cujo motivo para esse ano era “personagens célebres”. Os CTT elegeram Vasco da Gama e Serpa Pinto para figurarem na série, escolhi este último para selo da quinzena, uma oportunidade para conhecer melhor este explorador de África.

Alexandre Alberto de Serpa Pinto era um homem pouco comum. Não só por ter sido um notável explorador africano, como também pelo seu temperamento muito próprio e especial. Começou logo por ter sido amamentado por uma cabra, não por haver falta de leite, mas porque o seu avô achava que isso era bom para a sua formação. O pai que era médico, fazia de ferreiro nas horas vagas, pelo que Serpa Pinto aprendeu a ferrar cavalos e também a fabricar espadas ou peças para armas que também reparava. Para completar esta formação sui generis, a mãe ensinou-o a bordar. Na altura de escolher uma profissão, aí, Serpa Pinto resolveu ser militar.

Para seguir esta carreira ia-se para o Colégio Militar, foi o que Serpa Pinto fez. Aqui o seu temperamento irrequieto começou logo a dar nas vistas, culminou quando mais tarde foi expulso da Universidade de Coimbra, por ter dado uma sova num professor especialista em domesticar alunos insubmissos. Imagino que muitas mais histórias deverão ter ficado por registar, Serpa Pinto seguiu mesmo a vida militar, a monotonia do quartel e das paradas não entusiasmavam muito o futuro explorador, a primeira oportunidade que teve de sair desta sonolência, agarrou-a com unhas e dentes.

E essa oportunidade foi uma expedição montada para punir um capitão-mor chamado Bonga que em Moçambique se tinha rebelado contra o governador de Quelimane. Assim que soube disto Serpa Pinto, ofereceu-se logo como voluntário, contudo as coisas não correram bem, as forças de Bonga não foram vencidas, a expedição voltou para trás, da história fica Serpa Pinto a salvar as vidas do comandante e do seu impedido, que se tornou seu empregado até morrer.

De volta a Portugal casou-se, esteve uns tempos resignado à vida de militar de caserna, até que, ao saber que se preparava uma expedição, agora científica, a África, imediatamente se pôs em campo, juntou-se assim  a Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens, que após algumas esperas e ansiedades pelo dinheiro que nunca mais era libertado, lá foram os três para Angola, tendo Serpa Pinto e Hermenegildo Capelo, passado primeiro por Londres, onde compraram ferramentas científicas de alguma qualidade e, claro, material próprio para a expedição, como sejam tendas, armas e também serviços de chá, um chazinho numa chávena de porcelana, mesmo na selva, tem outro sabor. Ao todo eram 17 pesadas malas que continham a inscrição “Expedição Portuguesa ao interior d’África austral em 1877”

A expedição tinha por objetivo oficial “explorar, no interesse da ciência e da civilização, os territórios compreendidos entre as províncias de Angola e Moçambique, e estudar as relações entre as bacias hidrográficas do Zaire e do Zambeze”, objetivo este pouco consensual, uma outra corrente preferia uma expedição mais vistosa, que era de ir do litoral de Angola ao litoral de Moçambique pelo meio do continente africano. Portugal preparava-se para a conferência de Berlim que se viria a realizar sete anos depois, o mapa cor de rosa começava a ser elaborado.

Foi muito difícil arranjar carregadores em Luanda e arredores (Serpa Pinto andou em angariação desde o Congo, no Norte, a Benguela no Sul), por este motivo a expedição só arrancou a doze de novembro cerca de sete meses depois do desembarque em Luanda. A primeira etapa consistia em chegar ao Bié, onde se encontrava Silva Porto, o sertanejo avançado cujo conhecimento da zona era muito importante para quem se queria aventurar para o interior desconhecido. Silva Porto é outra figura interessante da nossa história colonial, do qual espero descobrir um selo para ter oportunidade de comentar, estou particularmente interessado no seu encontro com Livingston, outro explorador muito conhecido ligado aos interesses britânicos na África colonial.

No Bié deu-se a separação. Como em toda a direção colegial, os três exploradores (mais dois contra um ou um contra dois) discutiam muito, as personalidades e temperamentos fortes de cada um, não facilitavam os consensos. Serpa Pinto, incompatibilizou-se com os outros dois, resolveu fazer a sua própria expedição e tentar atingir a contracosta em Moçambique. Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens levaram o objetivo da missão à risca, estudaram as relações entre as bacias hidrográficas de Zaire e do Zambeze.

Serpa Pinto tinha agora o seu próprio plano, que consistia em atravessar o sertão de Angola, alcançar o Zambeze e depois seguir o curso do rio até Zumbo e Tete, em Moçambique. Não atingiu Moçambique, por várias razões caminhou mais para sul do que para este, quando emocionado voltou a ver o mar, estava efetivamente junto ao Índico mas, muito longe de Moçambique, em Durban, na África do Sul.

A caminhada desde Benguela tinha durado cerca de um ano e meio. Com alguns carregadores e uma carabina que o próprio rei D. Luís lhe tinha oferecido, Serpa Pinto percorreu as províncias do Bié e do Cuando Cubango, acompanhou o rio Zambeze pela região do Barotse (na atual Zâmbia), passou maravilhado pelas cataratas Vitória, seguiu depois pelo deserto do Kalahari, no que hoje é o Botswana, passou por Pretória, atravessou a província do Natal e chegou finalmente a Durban, onde considerou ter terminado a sua missão. Esta caminhada não foi um passeio turístico, como hoje é possível fazer, mas uma grande aventura, uma superação permanente de dificuldades e contrariedades. Foram mais de quatro mil quilómetros, quase sempre a pé, através da selva, da estepe e do deserto. Quando o explorador alcançou a fronteira do Transvaal, a sua comitiva reduzia-se a meia dúzia de pessoas, “entrevadas e sem forças, com os corpos magros cobertos de farrapos e andrajos”. Serpa Pinto passou por tudo: a meio da jornada só não morreu de paludismo por ter encontrado um missionário suíço (Coillard) que o curou e aturou (sim, aturou, o explorador se no seu estado normal já era difícil, doente era bem pior); conheceu, in loco,  o negócio da escravatura, ainda ativo na zona, li algures que retirava as grilhetas aos escravos para eles puderem fugir, não estou certo da veracidade desta ação; desceu o alto Zambeze numa piroga (o que parece requerer muita perícia e equilíbrio), qual Camões salvando os Lusíadas, com a cópia do diário e as anotações das suas observações científicas amarradas ao corpo; foi atacado por leões e leopardos e já agora pelo rei dos Luenas com quem não se deu muito bem, e os seus guias não eram todos de confiança; mediu as cataratas do rio Zambeze, apoiado em lianas de resistência duvidosa. Mas o maior dos desgostos, o que mais afetou o explorador, foi a morte da sua fiel cabra Cora (sim a mesma que o amamentou em criança), não de morte natural mas num acidente no acampamento.

Os relatos das duas expedições estão publicados: Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens com o título “De Angola à contracosta”, Serpa Pinto adotou “Como eu atravessei a África”. Os livros são um misto de aventura e ciência, como escreveu Serpa Pinto, “as viagens na África produzem sempre um romance e, algumas vezes, também um livro de ciências”. As duas viagens não resolveram nenhum problema geográfico, mas contribuíram notavelmente para o conhecimento etnólogo e geográfico da região. A expedição de Serpa Pinto teve alguma repercussão na Europa, nomeadamente em França, onde realizou algumas conferências e foi condecorado pela Sociedade de Geografia.

Serpa Pinto voltou a África mais vezes, o continente estava a ser distribuído pelas potências coloniais, Portugal fazia pela vida. Em 1889 em Moçambique meteu-se em confusões com os súbditos de sua Majestade, arreou umas bandeiras, por isto e provavelmente por mais coisas, Portugal recebeu o famoso ultimatum, o país indignou-se, nasceu a Portuguesa, a Monarquia passou a governar a prazo.

No selo para além da figura do explorador, vêem-se algumas referências à expedição, como sejam a coluna de carregadores, a máscara e a palavra África escrita à maneira antiga. Vê-se ainda o teodolito aqui a simbolizar o carácter científico da expedição. Ter-lhe-ia acrescentado a cabra Cora e o papagaio, o palrador que o acompanhou durante a viagem, muitas vezes empoleirado no seu ombro, estes dois elementos para realçarem a parte fora do comum de Alexandre Alberto da Rocha de Serpa Pinto.

De Serpa Pinto só me lembrava do nome, provavelmente da história da quarta classe tirada há já muitos, muitos anos. Tudo o que aqui resumo foi retirado da internet e de alguns livros da minha biblioteca particular. A terminar digo, apenas, que gostei imenso de conhecer com mais pormenor este grande e fascinante português do século XIX.