Cardus Edição 40, 15-09-2018

Embaixada de D. Manuel I ao Papa Leão X - 500 Anos

O selo desta quinzena foi posto em circulação pelos CTT em 29 de julho de 2014. A série compunha-se de dois selos, escolhi o que continha o elemento mais vistoso (o elefante) da embaixada de D. Manuel I ao Papa Leão X, cujos 500 anos a emissão comemorava. Os desenhos são da autoria de Carlos Possolo.

Em linguagem dos nossos dias a embaixada de D. Manuel foi um bem-sucedido investimento em marketing político. O Rei investiu em grande: a embaixada era composta por mais de 100 pessoas sumptuosamente trajadas, chefiadas por um embaixador de renome (Tristão da Cunha), e alguns animais exóticos como sejam uma onça de caça, um cavalo persa e um elefante branco habilidoso, que era a estrela da companhia. Em cima do elefante, para além do tratador, seguia a cereja em cima do bolo, isto é, um palanque de prata, contendo um cofre com ofertas reais, segundo se diz com moedas de ouro e paramentos bordados com pérolas e pedras preciosas, que devem ter arregalado os olhos do papa Leão X, já muito conhecido na altura pelo fausto e luxo com que gostava de se rodear (Lutero que o diga).

Segundo as crónicas, a entrada da embaixada em Roma ao som de trombetas e tambores foi um sucesso, as pessoas e o Sumo Pontífice ficaram encantadas com tudo mas principalmente com o elefante, que assim que viu o papa se ajoelhou três vezes, após o que meteu a tromba numa vasilha de água de cheiros, e aspergiu a água pelos abençoados cardeais e pessoas que assistiam à cerimónia. De notar que o cortejo inseria-se na tradicional embaixada de obediência ao papa, na sequência da respetiva eleição.

O sucesso abriu as portas do Vaticano, ao embaixador foi fácil reunir-se com o papa, ao que reza a história os objetivos estratégicos do rei foram quase todos conseguidos.

O Papa não ficou só com o cofre das ofertas, ficou também com o elefante, o Hanno (nome do paquiderme) tornou-se uma espécie de mascote papal, nunca mais saiu de Roma, ao morrer teve direito a um epitáfio redigido pelo próprio papa.

A embaixada deve ter custado alguns cobres ao reino, mas o investimento revelou-se produtivo. A mensagem do Portugal grandioso foi bem passada e D. Manuel I passou a ter o apoio papal aos seus projetos e pretensões. Portugal que alguns países e reinos europeus só sabiam que existia e mais nada, passou a ser mais conhecido e respeitado no mundo, nomeadamente no cristão, onde passou a ser uma voz (ou uma força) a ter em conta.

É assim, é preciso saber investir, criar lobbies, coisas que D. Manuel há 500 anos já sabia fazer, mas cuja ciência ou arte parece que se perderam no tempo. Pessoalmente acho que os nossos investimentos, hoje em dia, não são grande coisa, investe-se muito no curto prazo, em projetos sem sustentabilidade, que consomem riqueza e não geram nenhuma.