Cardus Edição 38, 15-08-2018
A presente série de três selos foi emitida pelos CTT em 27 de fevereiro de 1979 numa homenagem ao emigrante português. Paulo Ennes, na altura Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Emigração, escreveu o seguinte texto na pagela informativa da emissão:
Desde sempre têm os Portugueses manifestado a tendência para demandarem outras terras, movidos pelo seu espírito aventureiro e para nelas buscarem a concretização dos seus sonhos e anseios. Tem sido este fenómeno uma constante da nossa História que muito a tem enriquecido. Nos nossos dias reveste porém a Emigração um carácter diferente, quer pelo número de Portugueses envolvidos quer pelas condições em que, até há poucos anos, ela se tem processado. O fenómeno migratório deve assim merecer uma atenção permanente que procure minimizar dificuldades e manter as ligações com a Pátria, em correspondência com os desejos e o sentir das Comunidades Portuguesas no estrangeiro.
O texto e os selos têm quase quarenta anos. O 25 de Abril tinha sido há cinco anos, o texto insere-se numa intenção de tratar a emigração duma maneira diferente, as remessas de emigrantes, na altura fundamentais para equilibrar a balança de pagamentos, também devem ter influenciado notavelmente esta mudança de atitude.
As migrações são um fenómeno permanente do desenvolvimento humano. As pessoas migram por diversas razões, para fugir à guerra ou a perseguições, para obterem melhores condições de vida, por espírito aventureiro também, nem toda a gente quer permanecer a vida toda no mesmo lugar. Há um certo rótulo pejorativo associado à emigração, não me parece justo, os emigrantes são pessoas com capacidades, com vontade, são acima de tudo lutadores, não se acomodam nem à miséria, nem aos lugares, nem às famílias. Veja-se o caso dos portugueses emigrados na França, muitas deles, hoje em dia, bens instalados e com responsabilidades na vida social francesa, note-se também como souberam evoluir, é um prazer saber e constatar que já não têm vergonha de serem portugueses, já têm orgulho em dizer que viveram em bidonvilles.
Normalmente migra-se de países de vida difícil para países com mais qualidade de vida. Um bom indicador do grau de felicidade de um país poderia ser dado pela apetência que tem para imigrantes. A França é um país com muitos imigrantes, os Estados Unidos são um país de imigrantes, Portugal foi um país de emigração, recentemente de imigração (cuja possibilidade nunca me tinha passado pela cabeça), ultimamente falou-se novamente em emigração, quanto a mim incorretamente, hoje em dia ir trabalhar para a Alemanha ou outro país europeu já não é emigração, apenas o mercado de trabalho foi substancialmente, mas mesmo substancialmente, alargado.
A emigração tem muitos dramas associados o maior deles tem a ver com a separação ou com o corte com as famílias e cultura. Quem emigra vai para o desconhecido, vai adquirir outros hábitos, conhecer outras gentes, outras culturas, se eventualmente retorna às origens, constata ao fim de poucos dias que a família já não lhe diz nada, que os temas para conversa se esgotam rapidamente, que os valores não têm nada a ver com os seus. Ao fim de um ceto tempo começam as saudades, não do Portugal bucólico e nostálgico da propaganda ou da música, mas do sítio onde passaram a viver, onde já estão enraizados. Claro existem sempre laços ou costumes que perduram, mas poucos, a língua perde-se rapidamente, as gerações seguintes desconhecem-na, conheço muito português de passaporte que não sabe falar português, pouco mais conhecem para além do obrigado, fado, vinho e Fátima.
Em Portugal também aconteceu um tipo de imigração muito especial, os intervenientes aqui levaram com o nome de retornados. Houve um choque inicial entre residentes e retornados, paulatinamente os regressados foram-se inserindo na sociedade do trabalho e não só, hoje as clivagens estão esbatidas, também já se passaram quase cinquenta anos, o tempo é a melhor ajuda na integração de pessoas, o tempo tudo resolve.
As migrações vão ser sempre tema, quem está bem quer o seu espaço protegido, quem não está bem procura espaços melhores. Atualmente os casos mais badalados pelos média são os problemas dos Estados Unidos com o México e o drama dos refugiados na Europa que ninguém quer receber apesar das boas intenções de alguns países ou governantes.
As migrações também servem para repor população jovem (os idosos não emigram), o que é extremamente benéfico para países envelhecidos como o nosso e da Europa em geral. Cito a este propósito o Secretário Geral das Nações Unidas, António Guterres, que proferiu uma frase que me ficou na memória: “A Europa não é sustentável sem emigrantes”.
E sobre esta série de selos dedicada ao Emigrante Português é tudo o que tenho para dizer. Estamos no verão, as estradas estão cheias de matrículas estrangeiras, muitas delas seguramente de emigrantes, foi esta paisagem que me inspirou a série desta quinzena.
Referências:
http://www.barometro.com.pt/2016/04/08/a-emigracao-dos-portugueses-para-franca
https://24.sapo.pt/vida/artigos/dos-que-fugiram-a-salto-aos-bidonvilles-jose-vieira-filmou-a-emigracao-portuguesa-para-franca