Cardus Edição 34, 15-06-2018

500 anos da descoberta do caminho marítimo para a Índia

O selo desta quinzena foi emitido pelos CTT em 4 de novembro de 1998. Fazia parte duma série de doze selos que comemorava os 500 anos da descoberta do caminho marítimo para a India e que foram emitidos a uma cadência de quatro por ano.

Não vou fazer os meus comentários habituais nem adicionar informação ao selo conforme faço habitualmente. Vou apenas juntar à imagem estes versos de Fernando Pessoa que toda a gente conhece:

 

O MOSTRENGO

O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,

E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:

«El-Rei D. João Segundo!»
«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,

Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»

E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»
Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,

E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»