Cardus Edição 33, 01-06-2018

Shackleton and the Endurance Expedition

Esta série de oito selos foi emitida pelos correios ingleses em 8 de agosto de 2014, uma emissão comemorativa dos 100 anos do início da Expedição Transantárctica Imperial, comandada por Sir Ernest Shackleton. Os selos reproduzem um conjunto de oito fotografias da expedição tiradas pelo seu fotógrafo oficial Frank Hurley.

Foi muito comum nos séculos XIX e XX a realização de expedições ou missões que para além do desenvolvimento e conhecimento científico tinham também por objetivo glorificar pessoas, nações e impérios. Ser o primeiro a chegar a lugares marcantes era uma grande motivação, quem quisesse ficar famoso, gostasse de aventuras e tivesse já algum curriculum na matéria, arranjava um bom projeto, convencia este ou aquele (leia-se governos ou pessoas influentes), arranjava um bom financiamento, uma boa bandeira, um fotógrafo e um cronista, e assim se arranjava uma expedição para a história. Também passámos por essa moda, fizemos a primeira travessia aérea do Atlântico Sul, o primeiro Raide Aéreo a Macau, existem provavelmente mais outros feitos menos conhecidos, mas que também aconteceram. Ainda hoje ser o primeiro em qualquer coisa, dá visibilidade e eventualmente dinheiro, assim o projeto seja bem pensado e melhor realizado.

Shackleton foi um desses homens da época que se virou para a Antártica, o último dos lugares terrenos onde ainda havia algo por descobrir ou atingir. Tentou ser o primeiro a chegar ao polo Sul, mas como bom líder soube voltar para trás em tempo oportuno (se continuasse nem lá chegava nem sobrevivia ninguém). Quem ficou com essa glória foi o discreto Roald Amundsen que ganhou a corrida a Robert Falcon Scott, inglês, o segundo a chegar, cerca de cinco semanas depois do norueguês.

A Expedição Transantárctica Imperial foi o segundo projeto de Shackleton. Consistia em ir do Atlântico (mar de Weddell) ao Pacífico (mar de Ross) através da Antártica com passagem pelo Polo Sul, seria a primeira travessia da Antártica por terra. Para realizar este feito o explorador requereu dois navios, O Endurance e o Aurora, o primeiro para levar a expedição até à baía de Vahsel, de onde partiria uma equipa de seis homens para atravessar o continente (só cerca de 2900 km, com o gelo e o frio por companhia) e o segundo para recolher os seis heróis no términus da jornada, no outro lado do continente. A expedição do Aurora estava ainda encarregue de colocar ao longo da grande barreira de gelo (até ao glaciar Beardmore) depósitos de combustível e alimentos, para serem usados na parte final da grande travessia pelos seis magníficos. Foi este o projeto que o explorador apresentou e que teve uma grande aceitação nomeadamente popular, foi daqui que veio o maior financiamento, através de uma subscrição realizada para o efeito. O entusiasmo pela expedição foi enorme, o explorador recebeu à volta de 5000 candidaturas, das quais, por métodos na altura considerados excêntricos, selecionou 56, 28 para cada um dos barcos. No Endurance seguiram ainda setenta cães, enquadrados por um responsável geral e apoiados por um médico veterinário.

Apesar de a primeira Guerra ter começado Shackeleton recebeu autorização do almirantado para iniciar a expedição (um telegrama de Churchil com apenas uma palavra: proceed) e assim o Endurance saiu do porto de Londres no dia 8 de agosto de 1914.

A história começa no princípio do ano seguinte quando o navio, já a caminho da baía de Vahsel, ficou preso num banco de gelo. O navio foi adaptado às funções de abrigo para o inverno, o comandante esperava que na primavera seguinte, com algum degelo o navio se soltasse e retomasse a sua viagem interrompida. Infelizmente as coisas não correram assim, a pressão do gelo sobre o casco do navio foi mais forte que a resistência deste, o navio afundou-se em novembro, a tripulação assistiu à cena acampada numa placa de gelo para onde previamente tinham transportado provisões e equipamentos. A placa de gelo andou à deriva cerca de dois meses, chegou inclusivamente a partir-se ao meio, até que Shackleton deu ordem para os membros da expedição se dividirem pelos barcos salva vidas e partirem à procura de terra. Ao fim de cinco dias no mar nada fácil desembarcaram na Ilha do Elefante, rochedo firme, mas desabitado e fora de qualquer rota marítima. O passo seguinte foi procurar ajuda, o comandante escolheu o melhor dos salva-vidas, o insubordinado carpinteiro da expedição procedeu a algumas melhorias no mesmo, óleo de plantas e sangue de foca foi o material encontrado para calafetar o barco. O objetivo era atingir a estação baleeira da Geórgia do Sul cerca de 1300 km distante, no barco seguiu o comandante e mais cinco membros criteriosamente escolhidos, os restantes vinte e dois ficaram a vê-los partir, mentalizados e capacitados para sobreviverem a uma espera de resgate sem data marcada, que podia ser nunca. Ao fim de quinze dias no mar tempestuoso, os seis avistaram a costa rochosa da Geórgia, onde o desembarque não foi fácil devido a um furacão que conseguiu afundar um navio de grande porte, mas que poupou a pequena embarcação, de salientar que esta era dirigida por um piloto experiente. Estavam, contudo, ainda a 50 km da estação baleeira, o comandante e dois homens resolveram seguir por terra, foram mais trinta e seis horas a caminhar por terrenos montanhosos até atingirem a estação, cujos residentes nem queriam acreditar que um dos três mortos-vivos que lhes pediam ajuda era o famoso explorador Shackleton.

O conforto não acomodou o comandante, imediatamente um barco saiu para trazer os três mais próximos, o resgaste dos vinte e dois da ilha do elefante começou a ser imediatamente organizado (o que não era fácil pelos custos que envolvia e com a Europa em guerra). Após algumas tentativas frustradas, finalmente, a 30 de agosto de 1916, um pequeno rebocador da marinha chilena e o baleeiro britânico Southern Sky, conseguiram chegar à ilha do Elefante para alegria dos sitiados, alguns já amputados de partes do corpo, mas todos ainda vivos, tinham esperado quatro meses e meio por aquele momento. Todos salvos foi a expressão do comandante divulgada pelos quatros cantos do mundo de então.

Havia que olhar agora para a expedição do Aurora, o barco encontrava-se na Nova Zelândia, para onde tinha sido levado, depois de ter sido arrancado por um temporal do Cabo Evans, onde estava ancorado, e ter andado à deriva durante vários meses no alto mar. O próprio Shackleton viajou para a Nova Zelândia e depois para o cabo Evans, onde resgatou os seus homens, que tinham realizado a sua parte do projeto, isto é, a colocação dos depósitos de provisões nos lugares planeados que, afinal, não serviram para nada. Aqui, Shackleton, não pode dizer “todos salvos”, três dos homens, um deles o leader, tinham perdido a vida na instalação dos postos de abastecimento.

A epopeia durou aproximadamente três anos, o explorador apesar de cansado e com a saúde debilitada não deixou de se meter em mais aventuras, ofereceu-se inclusivamente como voluntário para a guerra que na altura alastrava na Europa.

Shackleton é hoje em dia uma referência no estudo e formação na área da liderança, onde foi um inovador para a época. Raramente tantas qualidades de liderança, aparecem concentradas numa única pessoa. Preferia a equipa à hierarquia, todos os seus homens, quer fossem marinheiros brutos, cientistas, ou técnicos experientes, partilhavam as tarefas de limpeza e higiene dos navios, o que desenvolvia um espírito de camaradagem e solidariedade. Era acessível à tripulação, mantinha-a informada sobre o andamento da expedição, as suas decisões eram claramente explicadas e justificadas, sempre muito sereno e calmo, mesmo nos momentos mais difíceis ou de perigo iminente. Tinha uma grande capacidade de motivação, os seus homens sentiam-se corresponsáveis nas decisões tomadas, era uma equipa a trabalhar para o mesmo objetivo, não apenas a cumprir ordens. Liderava pelo exemplo, disciplinado e disciplinador (vem-me à memória os louvores da tropa), não exigia de ninguém aquilo que ele próprio não conseguisse fazer. Não hesitava em mudar de opinião e de estratégia, sempre que constatava que um plano não estava a resultar ou estava condenado. A mudança era explicada, a autoridade e o respeito eram mantidos. Quando o Endurance se afundou, a expedição ficou imediatamente comprometida. Shackleton ainda tentou outros planos e alternativas para a salvar, mas a partir do momento em que viu que isso não era possível, concentrou-se na salvação dos seus homens. Um obstinado tinha morto a expedição e os homens, o líder Shackleton não pôde evitar a morte da expedição, evitou, contudo, a morte dos seus homens.

Cardus, 1 de junho de 2018

Fontes: