Cardus Edição 32, 15-05-2018
Estes quatro selos foram postos em circulação pelos CTT em 4 de julho de 2007 numa homenagem às motas como meio de transporte popular. De cima para baixo e da esquerda para a direita temos uma SMC-N de 500 cc de 1935 (1ª moto fabricada em Portugal), uma FAMEL Foguete de1959, uma Vilar Cucciolo de 1935 e uma Casal Carina de 1969. Os desenhos são de Acácio Santos e Helder Soares. Mais quatro motas foram estampadas num bloco, os CTT publicaram ainda um livro sobre o tema, que esgotou rapidamente, não consegui comprar nenhum exemplar apesar de o ter encomendado.
As motos, ou melhor, as motorizadas (motas de 50cc), foram meios de transporte muito populares, nos anos 60 e 70 e 80, principalmente no interior, onde os transportes públicos eram reduzidos, senão mesmo inexistentes.
As motorizadas acabaram com os burros, o transporte dos pobres até então, diga-se em boa verdade muito mais ecológico e bucólico que a máquina que lhes tirou o emprego. Claro que os animais eram lentos, teimosos, necessitavam de um curral, mas eram uns bichos simpáticos, nem sempre bem tratados por quem se montava neles, muitos deles sabiam o caminho para casa de cor (tal como os carros autónomos do amanhã), era só subir para a garimpa, alinhá-lo para o destino, uma palmada na cocha e o simpático levava-nos a casa, sem falhas de software. Ainda não conheci a sensação de viajar num carro autónomo, já conheço, contudo, a sensação de viajar empoleirado em cima de um burro, só eu e ele, ele a saber por onde e para onde ia, eu, mais limitado, só para onde ele me devia levar. O burro comandava, escolhia o caminho e a velocidade, respeitava os peões, travava quando era preciso, só se imobilizou quando chegou ao destino: o dele, à porta do curral onde vivia, o meu, na porta ao lado.
Bom, deixemos a nostalgia dos burros, passemos então à nostalgia das motorizadas (martirizadas, com também se dizia). Os motores eram na grande maioria a dois tempos, tinham um trabalhar próprio, um cantar típico, faziam muito barulho, o escape sempre a largar uma boa fumarada, o cheiro a gasolina (mistura) sempre muito ativo. Teoricamente eram de dois lugares, mas cabia sempre mais o filho no meio, a mãe protegia-o com os braços, as mãos grudadas na cintura do marido. Quando necessário segurava-se ainda dos lados uns cestos ou sacos, para a merenda ou compras do dia. A motorizada espremia-se toda, mas nunca se negava à marcha, gemia nas subidas, mas descansava nas descidas. Com a carga completa o equilíbrio era difícil, o guiador pesado, quem caminhasse pela berma da estrada, ou se desviava para a valeta ou arriscava levar com a mota e passageiros em cima, para além da culpa do acidente. Os direitos dos peões só começaram a aparecer mais tarde.
Os mais jovens faziam habilidades, guiar sem mãos, curvas a 50, Cristos, derrapagens controladas, corridas com o comboio, ver quem dá mais, a regra era acelerador ao fundo, fosse a subir ou a descer.
Esta época histórica dos transportes particulares vivi-a em Angola onde residia na altura. O meu pai foi proprietário de duas motas, uma Puch DS50 (uma curiosidade da altura com para-canelas e rodas pequeninas mas que não andava nada), e uma Zundapp KS50, esta sim, uma senhora mota, três velocidades, 100 km/h marcados no mostrador (onde o ponteiro nunca bateu apesar dos esforços), amortecedores duplos atrás, que fazia a inveja dos meus colegas da escola, alguns limitados em transportes às burras (nome popular das bicicletas), outros à patinha, alguns felizardos lá tinham uma motita, mas um estudante de Zundapp só mesmo eu. Claro que a Zundapp não era para me pavonear à saída da escola, morava a uma dezena de quilómetros da cidade, ia e vinha todos os dias, dava boleia a um irmão que, por causa da polícia, só apanhava à saída da cidade, onde o asfalto acabava e a picada começava e onde ele me esperava pontualmente à hora marcada. Durante a viagem levava-se com chuva em cima, o frio às vezes também apertava, tudo coisas boas para temperar a vida, a roupa muitas vezes ainda secava na viagem, o frio matava-se interpondo uma folha de jornal entre a pele e a camisa. As idas ao chão aconteciam às vezes, a preocupação era mais a roupa suja que os arranhões no braço ou nas pernas.
As regras em Angola eram diferentes da metrópole, em Portugal era obrigatório o capacete (penico) e podia-se usar os dois lugares; em Angola era precisamente o contrário, o capacete não era obrigatório, mas não se podia dar boleias, para o fazer era preciso trocar as voltas à polícia, seguindo por ruas de pouco movimento ou arriscando a multa da ordem caso fosse apanhado (uma vergonha para o condutor e família). Alguma juventude mais habilidosa entretinha-se a provocar a polícia, para o que bastava passar-lhes nas barbas, com alguém no assento de trás. As motas da polícia eram potentes e rápidas, mas de manobra difícil devido ao peso da mota e do agente. Andavam bem a direito, mas no zig-zag quem dava cartas eram as motorizadas. Nova Lisboa, onde estas cenas se passavam era uma cidade pequena, em construção, com poucas ruas alcatroadas, a maior parte de terra batida, argilosa, muito poeirentas no tempo seco, com muitos buracos no tempo das chuvas. Muitas eram ladeadas por mato, onde se circulava por caminhos gentios, acessíveis às motorizadas, mas difíceis para os motões, os poucos polícias que se aventuraram por eles arrependeram-se bem depressa. O espetáculo começava, assim, com o condutor e o passageiro ilegal a passarem a grande velocidade (aí a uns 60 bem espremidos) em frente à polícia, eventualmente com alguns gestos provocadores à mistura, a polícia a correr para os motões e a demorarem algum tempo a arrancar, a verem a motorizada lá ao fundo a uma distância de uma pequena aceleradela, quase a agarrarem-na mas a perderam-na imediatamente por causa da curva muito fechada à esquerda, e depois à direita, e assim sucessivamente, finalmente uma rua comprida, sem cruzamentos, agora é que é, desta vez vou apanhá-los, vão pagar por todas, está quase, raios partam a minha vida, meteram-se outra vez pelo mato fora, lá estão os sacanas a fazerem-me adeus, a desafiarem-me de orelha a orelha, se os apanho nem sei o que lhes faço.
Naquele tempo, não havia reboques, nem para carros quanto mais para estes pequenos veículos de duas rodas. Quem andasse de motorizada tinha de ter alguns conhecimentos técnicos para não ficar pendurado a meio da viagem. Remendar um furo, ajustar os platinados, limpar a vela quando o motor afogava, por exemplo, eram tarefas que todos deviam saber fazer. Havia ainda a questão da corrente, sempre bem oleada, que com o tempo começava a saltar, e que era preciso voltar a colocar no lugar, o que tinha de ser feito com as mãos, que acabavam a operação escorregadias e sujas de óleo, felizmente havia muito capim à volta para lhes devolver a cor original.
As motorizadas eram ainda produto nacional, fabricado cá, apenas os motores eram importados, nem todos, algumas fábricas também os produziam. Na altura importar custava divisas, hoje parece que não, é mais fácil, cómodo e económico importar do que fazer. As fábricas fecharam ou refizeram-se, as motorizadas caíram em desuso, existem agora umas coisas importadas chamadas aceleras, também não se vêm muitas, o que se vê à grande e à francesa são carros, cada vez mais potentes, maiores, mais caros e com menos gente lá dentro.
Como pode ser lido na pagela da série, esta emissão filatélica é uma homenagem a todos aqueles que deram o seu melhor para a história do motociclismo nacional, tal como para todas as marcas nacionais que motorizaram o nosso país: Alma, Anfesa, AJP, Casal, Cinal Pachancho, Confersil, EFS, Famel, Forvel Fundador, Pachancho, Perfecta, Mocal, Mayal, Masac, Mavlco, Micromotor, Motali, Motosal, Motoesa, Nacional, R. Sariano, S.I.S. Sachs, Slrla, Vilar, entre tantas outras.