Cardus Edição 31, 01-05-2018

1º de Maio

O selo desta quinzena foi emitido pelos Correios da República Popular de Angola no ano de 1976, integrado nas comemorações do 1º de Maio.

A origem do 1º de Maio como data histórica está muito ligada à luta pela semana de trabalho de oito horas, que hoje é corrente, mas há pouco mais de 100 anos não era, dezasseis horas era o standard naquele tempo. O 1º de Maio é hoje celebrado como o dia do trabalho, é feriado em muitos países, mas não em todos, não é por exemplo nos Estados Unidos, onde o Labor Day é comemorado na primeira segunda-feira de setembro. Em Portugal o feriado só apareceu depois do 25 de Abril de 1974, até lá não havia feriado, muito menos comemorações.

Uma manifestação de milhares de trabalhadores em Chicago em 1 de maio de 1886, que iniciou uma avalanche de afrontamentos entre polícia e manifestantes, do que resultaram muitos mortos e feridos, foi a razão para se escolher esta data como o símbolo da luta dos trabalhadores por melhores condições de vida.

Hoje em dia o 1º de Maio é um dia de festa, já não é bem um dia de luta, veja-se o programa das centrais sindicais, há algumas manifestações e concentrações, mas o prato principal são os almoços, convívios, desporto e outras atividades lúdicas. Sou um leigo nesta matéria, parece-me, contudo, que os sindicatos não evoluíram muito, só conhecem a arma da greve, continuam muito dispersos, muito nacionais, não actuam a nível internacional como faz o grande capital.

O selo foi emitido em 1976, foi o primeiro 1º de Maio comemorado em Angola como país independente. Vivia em Luanda nessa altura, não me lembro de nada do que se terá passado nesse dia, terá havido certamente muitos comícios e discursos, festas nem por isso, os tempos não estavam para aí virados. Havia recolher obrigatório, as lojas tinham as prateleiras vazias, lutava-se dia a dia para arranjar comida, para o que era necessário alguma astúcia, capacidade e uma boa rede social (que não era o Facebook, não havia net nesses tempos, o telefone (o fixo) era o gadget mais avançado da altura). Quem tinha dólares tinha a vida mais facilitada. Tempos difíceis, contudo, de uma grande aprendizagem, de uma grande vivência, de um grande humanismo, de uma grande solidariedade entre pessoas.