Cardus Edição 30, 15-04-2018
Este conjunto de dois selos siameses foi posto em circulação pelos CTT no passado dia dois, mais uma emissão comemorativa, neste caso, dos 150 anos da EPAL. Os desenhos são da autoria de Raquel Simões, ao que me parece, dos quadros da empresa, as cores são as da natureza, vê-se dois jovens a beber água, o aqueduto e um tanque de água, provavelmente haverá mais símbolos espalhados pelo desenho, dou um doce a quem descobrir mais.
A EPAL, abreviatura de Empresa Portuguesa das Águas Livres, é a última designação da companhia que desde 1868 está encarregada de fornecer água aos lisboetas e vizinhos. Tem ainda a tutela do museu da Água, um conjunto de monumentos e edifícios construído entre os séculos XVIII e XIX, dos quais os mais representativos são o Aqueduto das Águas Livres, a Mãe d’Água das Amoreiras (onde caía e era armazenada a água que vinha pelo aqueduto abaixo), a Galeria Subterrânea do Loreto (um exemplo do modo como a água era levada ao consumidor final, reservatórios para casas nobres, chafarizes para o povo e animais), o Reservatório da Patriarcal (por debaixo do jardim do Príncipe Real) e a Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos (perto do museu do Azulejo).
Lisboa é bonita vista do ar (vale a pena ocupar o lugar da janela no avião de regresso), é deslumbrante quando se chega pela ponte e, ao que me dizem, é também um espetáculo vista por baixo. Há aqui todo um mundo escondido, felizmente parte deste mundo já está preparado para receber visitas, só é preciso estar atento a horários e aberturas especiais, não pode ser qualquer dia. Estou a lembrar-me das galerias romanas na baixa, soube agora das galerias das águas livres e do reservatório da Patriarcal (o nome vem do facto de no local ter existido, antes de arder, a Basílica Patriarcal de Lisboa), deve haver também muita muralha fernandina soterrada, nem imaginamos o que temos por baixo quando caminhamos pelas ruas de Lisboa. De notar que Lisboa é muito antiga, muitos séculos antes de Cristo, já cá havia gente inquieta.
Embora morando ao lado dum grande rio onde água não falta, Lisboa teve durante séculos um problema de água potável, que só ficou resolvido quando as águas de Odivelas começaram a jorrar nos chafarizes de Lisboa, trazidas pelo aqueduto. A chegada da água, para além da festa que deve ter sido, criou também uma nova profissão, os aguadeiros, que eram as pessoas que vinham encher barricas aos chafarizes e depois distribuíam a água pela cidade, anunciando-se através dum pregão muito próprio. As barricas eram carregadas aos ombros, o que não devia ser muito cómodo, e que me faz lembrar os meus tempos de Angola colonial, onde no interior remoto, também era preciso ir buscar água ao rio ou à fonte mais próxima. Aqui as barricas eram as famosas angoretas, barris de vinho que a metrópole exportava e que, depois de aliviadas do néctar interno, eram adaptadas ao transporte de água, adaptação essa que passava fundamentalmente pela colocação de dois bons pregos, um de cada lado da angoreta quando deitada, nos quais se enrolava um arame, através do qual se aplicava uma força de tração, que fazia a angoreta rolar, assim o terreno o permitisse. Tocou-me algumas vezes esta variante mais rolante da função de aguadeiro, a direito ia-se bem, a subir era mais difícil, a descer era preciso algum cuidado e bons travões, importante era chegar a casa com água e a angoreta inteira, os paizinhos do antigamente não eram tão tolerantes com as brincadeiras dos filhos como são hoje. Tempos ecológicos esses, em que o banhinho completo era só ao sábado, à noite apenas se lavava os pés para não sujar a cama, os sapatos eram um incómodo, bom mesmo era andar descalço.
Bom, voltando ao presente, ainda não é desta que vou conhecer Lisboa por baixo da terra, vou começar por cima e já agora pela Mãe d’Água das Amoreiras, uma maneira pessoal de comemorar os 150 anos da EPAL. A vida de reformado tem estas facilidades, não é preciso faltar ao trabalho ou meter um dia de férias, para se ir a qualquer lado.
O monumento encontra-se perto do largo do Rato, de cuja estação do Metro saio (outro monumento, decorado com painéis de Maria Helena Vieira da Silva, Árpád Szenes e Manuel Cargaleiro) à procura de indicações para o Museu. Não vi nenhuma, provavelmente porque não vi muito bem, mas também não há problema, avança-se em direção às Amoreiras, nalgum lado deve estar uma seta a indicar o dito, o edifício deve ser este, por onde se entra é que é difícil saber, descobri que existe um jardim escondido nas Amoreiras, a entrada do museu deve estar por perto, talvez por ali, ora, finalmente, um portão meio aberto ostenta uma placa indicando que estamos na Mãe d’Água das Amoreiras. Como o portão está aberto deve-se poder entrar, o enigma da entrada continua, dá-se uma volta, portas fechadas, ao cimo duma escada está uma aberta, deve ser por ali, é mesmo, entra-se numa sala com um funcionário sentado mais preocupado com o computador do que com quem entra. É preciso pagar para ver o que está ao lado, são três euritos, fui a Lisboa expressamente para estar ali, paguei, recebi uma pequena brochura que sempre serviu para as notas desta crónica e pronto, o museu está visto: temos um grande reservatório à frente que aguenta com 5500 m3 de água, com uma profundidade de 7,5 metros do que não nos apercebemos porque o espelho de água reflete as abóbodas do teto o que dá uma sensação interessante de mundo ao contrário; há mais umas escadinhas apertadas, que é preciso subir para ver a conduta que trazia a água do aqueduto, que depois escorria por uma cascata com ar de chafariz, terminando assim no reservatório a sua viagem de 14 km, sempre a descer como é bom quando se corre; subindo um bocadinho mais, chega-se ao terraço, um grande espaço que dava para jogar à bola, donde, segundo o prospeto, se tem uma vista espetacular de Lisboa, o que estariam a desfrutar os três ou quatro turistas que por ali vagueavam, que, contudo, não me pareceram muito deslumbrados. Para animar o local há uma exposição de fotografia a ladear o reservatório, o tema se bem me lembro era o da diversidade e a autora canadiana. Um reservatório não é propriamente um jardim de flores, a atmosfera é húmida, musgosa, ressentem-se as minhas narinas, passo novamente pelo homem do computador, agora à espera da decisão dum casal francês, indeciso entre o entrar e o não entrar, melhor, entre o pagar e o ver dali, não sei o que decidiu, saí sozinho, a visita ao museu se durou cinco minutos foi muito.
Não foi assim um grande sucesso esta minha primeira visita à Lisboa da água. Mas não vou desistir. A próxima, vai ser às galerias do Loreto, vou de certeza gastar mais de cinco minutos a percorrer os 1250 metros subterrâneos que vão daqui (ainda estou nas Amoreiras) até ao miradouro de S. Pedro de Alcântara.