Cardus Edição 24, 15-01-2018

Centenário do Selo Postal de Angola

Em 1970 os correios de Angola emitiram dois selos para comemorar o centenário do selo postal de Angola. Um deles está representado acima e retrata uma locomotiva, da série Garratt, com as insígnias CFB que quer dizer Caminho de Ferro de Benguela.

Isto passou-se há quase 50 anos, na altura Angola era uma colónia Portuguesa. As coisas eram muito diferentes na época, por exemplo, esta locomotiva funcionava a vapor e o combustível era lenha (primeiro da floresta natural, depois de eucalipto). O CFB possuía 48 destas locomotivas que tinham sido produzidas em Inglaterra e eram as mais potentes da frota, podendo rebocar comboios até 500 toneladas. Para alimentar as máquinas e para não consumir floresta natural, o CFB desenvolveu uma plantação própria de eucaliptos (a maior plantação privada da época), onde o meu pai trabalhou até morrer durante 25 anos. Estas plantações estavam colocadas ao longo da linha, o que facilitava o transporte, mas também os incêndios provocados pelas fagulhas libertadas pelas máquinas.

Viajei muito ao longo da linha que ia desde o porto do Lobito até à fronteira em Dilolo. Viajava-se de dia e de noite, as distâncias eram longas, a marcha nem sempre rápida. A passagem do comboio, era uma festa, toda a gente corria para a linha, fazendo adeus, principalmente quando passava o “mala” ou o “comboio belga” que eram os comboios específicos para transporte de passageiros.

Durante a guerra da independência o CFB foi completamente destruído.

Ainda hoje gosto de andar de comboio. Já não se ouve o matraquear constante dos carris, o silvo típico da entrada nas estações, o arfar da máquina nas subidas mais acentuadas, já não há fumo nem fagulhas, a chegada do comboio também já não é um grande acontecimento, mas continua a ser um prazer ver a paisagem corrida, a conversa de ocasião, a leitura do jornal, o mundo que gira à volta dos comboios e das estações.