Cardus Edição 45, 01-12-2018

Relíquias do Passado

 

Num destes fins de semana, na zona de Marvão, a procura rápida de restaurante para almoçar, conduziu-me a um do tipo familiar, que fica à beira da estrada, aí a uns 400 metros do centro da vila de Portagem.

Enquanto esperava pelo prato encomendado, num dos intervalos da conversa, dei uma olhadela para a decoração interna, sem nada de especial, apenas um retrato antigo de um casal, colocado numa parede ao fundo me despertou a atenção. O casal provavelmente foi o primeiro dono do restaurante, sucessivamente passado aos herdeiros, mantendo a característica familiar, o que se notava perfeitamente ao fim dum certo tempo em contacto com os empregados.

Pessoalmente tenho em casa uma foto desta tradição, os meus filhos já não têm nenhuma, os filhos dos meus filhos muito menos, se a tradição volta, bem enchem uma parede com fotos.

No retrato lá estavam, então, o marido e a mulher, pose institucional, bem arranjados e vestidos, com um ar sério e responsável. Estava-se no tempo em que a família era uma instituição, um casamento era um grande acontecimento social, um momento único na vida, quer para o bem quer para o mal. O casal tinha por obrigação viver um com o outro, manter a casa, ter, educar e criar filhos. A família era o centro do mundo, um porto de abrigo para os maus momentos, um local de alegria nos bons momentos, um lugar arregimentado no dia a dia. Pai e mãe eram a autoridade, filhos obedeciam aos pais, cada um dos cônjuges tinha um papel ou tarefa a desempenhar, papéis e tarefas não eram partilhadas.

Isto era assim à volta de uma centena de anos, felizmente ou infelizmente, não interessa para o caso, hoje as coisas estão totalmente diferentes. A primeira coisa a desaparecer foi o casamento eterno, a própria cerimónia caiu em desuso (há quanto tempo que não assisto a um casamento), o corrente hoje em dia são as uniões de facto, que passam ao fim de uns anos a desuniões também de facto, tal como os poucos casamentos a divórcios. Os papéis do casal estão completamente misturados, ambos são responsáveis por tudo e ambos são responsáveis por nada. Ambos trabalham fora, concorrem um com o outro em salários e realização pessoal, estão mais tempo com os colegas e amigos do que um com o outro, os filhos são uma chatice, lá se vai a liberdade e a qualidade de vida, e também o dinheiro que agora vai para as creches e festas de anos dos ditos. A família tradicional morreu, é uma relíquia do passado, em lugar do nós temos agora o eu, eu sei, eu faço, eu digo, muita liberdade e pouca responsabilidade, muitos direitos e poucos deveres. A família é visível apenas nos apelidos, agora também sem regras, o nome é negociado, ora fica o apelido dele ou o dela, ganha quem for mais convincente ou poderoso.

Mais cem anos e faço ideia como é que as coisas devem estar, provavelmente as crianças chamarão pai ou mãe ao robot que as alimenta e lhes muda a fralda, laços familiares não devem saber o que isso é, foram desenhados num computador e produzidos numa impressora nD, em vez dum nome têm agora um código com muitas letras e números difíceis de decorar, o que também não é preciso porque está residente num chip que lhe colocaram na cabeça e que o identifica na rede Ipn, onde também se encontra o frigorífico e tudo o que o que mais existe na Terra ou no universo. Até já estou arrepiado com este pequeno devaneio futurista, ainda bem que já não estarei cá para ver, já tenho dificuldades em entender o mundo atual, neste futuro morria de choque.

Bom, deixando o delírio e voltando à realidade, nomeadamente à foto que titula esta crónica barata, não tem nada a ver com o texto, apenas foi tirada perto do restaurante. Idealmente o texto seria encimado pelo retrato que me despertou a atenção, ou por um equivalente, mas o RGPD e a carta de princípios deste jornal não me permitem este idealismo. Ficamos então com uma natureza outonal viva, também parte do universo em que vivemos, em constante evolução, as árvores agora estão assim, daqui a mais cem anos ainda lá estarão?