Cardus Edição 40, 15-09-2018

O Deserto

Tenho algum fascínio pelos desertos. Contemplar um deserto seco e árido, é uma sensação que tenho alguma dificuldade em descrever, uma mistura de beleza, solidão, simplicidade, espaço, qualquer coisa de eterno que me perturba por uns momentos.

O meu primeiro contacto com o deserto foi no sul de Angola onde começa o Namibe. Aqui constatei que o deserto é fundamentalmente aridez, não é só areia como eu imaginava. Não há muito a referenciar deste contacto, lembro-me apenas das avestruzes a correr (e correm bem) e da Welvitchia Mirablis, planta muito própria que só existe neste deserto.

O Sahara é, suponho, o deserto mais conhecido no mundo. Não está muito longe daqui, receio até que ele venha a caminho de nós, li algures que a desertificação caminha para norte. Basta atravessar o estreito de Gibraltar, subir ao Atlas, descer, e estamos no grande Sahara, o deserto mais quente do mundo, o terceiro em extensão (quase dez milhões de quilómetros quadrados) após o Antártico e o Ártico, mais uma vez aprendo que deserto não quer dizer areia, apenas espaços em que a precipitação é inferior a 250 mm por ano.

Já estive por duas vezes no Sahara. A primeira em 2002, num campo de refugiados Saharuis, na Argélia, como participante numa corrida de solidariedade com a frente Polisário, uma organização que luta, e continua a lutar, pela independência do Sahara Espanhol. A segunda, em 2015, agora em território marroquino, integrado num grupo de motares que andaram durante cerca de dez dias, a fazer barulho pelas estradas de Marrocos. Notas sobre estas duas visitas são o tema da crónica desta quinzena, a foto é uma vista de uma duna na parte marroquina do Sahara.

Comecemos então pela primeira visita. A estadia durou três dias, como disse num campo de refugiados, onde vivemos em comum com famílias saharuis, das quais eramos hóspedes. Nos campos de refugiados não se faz nada, porque não há nada para fazer, ou que valha a pena fazer. Teoricamente é uma situação transitória, um compasso de espera, a realidade é que, no caso Saharui, a espera já vai em mais de quarenta anos, pelo menos uma geração já passou metade da vida à espera duma solução que tarda em chegar. Há muita vida parada, contemplativa, alimentando-se de sonhos difíceis de realizar. No campo já não existiam tendas, os refugiados viviam em barracas de adobe cobertas com chapas de zinco, implantadas sem qualquer ordem ou alinhamento, o que tornava os percursos difíceis de fixar, nomeadamente o caminho para a Club House (a cantina dos convidados). A escola, hospital e outos edifícios públicos tinham um aspeto melhorado mas o material de construção continuava a ser o adobe e o zinco. Espalhados pelo campo havia alguns tanques de água, abastecidos pelos serviços argelinos a uma cadência que não permitia qualquer desperdício. Nunca vi ninguém a tomar banho, vi foi como água numa pequena cafeteira, dá para fazer chá e ainda para lavar as chávenas. O tanque de água aparece também em muitos desenhos das crianças na escola como tive ocasião de verificar na visita organizada pelas autoridades do campo. Havia algum comércio, era possível comprar algumas coisas em barracas próprias. A comida devia vir quase toda de fora, havia uma grande visibilidade de ajuda do País Basco. A guerra acabou quando foi minada a zona de acesso ao antigo Sahara espanhol, agora fala-se num muro construído por Marrocos, o território continua na lista do comité de descolonização da ONU, uma lista que ainda contém dezassete países (embora alguns deles sejam de dimensões e populações muito reduzidas) que ainda são considerados como territórios colonizados.

Do programa da estadia fazia parte uma corrida de camelos num espaço mais ou menos equivalente a um campo de futebol. Nunca tinha visto uma corrida de dromedários, mas se esta serviu de modelo, o espetáculo é mais ou menos este: alinhar os camelos na linha de partida é uma coisa impossível, pelo que o tiro de partida é dado quando o alinhamento estiver mais ou menos, ou for o possível; quando finalmente se ouve o disparo, do que os animais se apercebem quando sentem a chicotada nas coxas, os camelos seguem cada um para o seu lado, alguns desatam mesmo a correr em sentido contrário à linha de chegada; o esforço dos “jóqueis” é conseguirem que o camelo se encaminhe para a meta mesmo que a passo de caracol, ou aos pulos desgovernados, isto à custa de muita chicotada e muito puxão na argola anelada nos lábios do animal;  quando finalmente há um que atravessa a linha da meta, o que pode ser por acaso ou quando menos se espera, a corrida termina, tem-se um vencedor, o que é um alívio para todos, camelos, condutores e pessoas que assistem à corrida como era o meu caso.

O grande dia foi o da corrida, agora dos atletas, correr pelo deserto é qualquer coisa de diferente, correr escoltado por guerrilheiras com Kalashnikoves ao colo empoleiradas em camelos foi uma sensação única. A corrida era internacional, muitas nacionalidades, ninguém se perdeu no deserto embora alguns atrasos tivessem sido preocupantes. À chegada os atletas eram animados com os gritos típicos dos árabes que todos eles conhecem e só eles sabem fazer. Participei na corrida dos 10 km, havia ainda a maratona e a meia maratona, uma delas ganha por um nacional, um orgulho para os saharuis.

Na zona da chegada, enquanto esperava pelos corredores da maratona, dei uma volta pelo campo, tive ocasião de observar o que não via desde os meus tempos do interior da África colonial: uma pedra a servir de martelo, com ela um saharui pregava um prego enferrujado numa ripa de uma janela. Não há martelos mas não é pela falta deles que as coisas não se fazem.

Sobre a segunda visita não tenho muito a dizer. Foi uma visita de turismo, fiz aquilo que os turistas fazem: apreciar a paisagem, comer e beber bem (não se vende álcool em Marrocos, as garrafas levadas de Portugal, animavam os jantares do fim do dia,  com a complacência forçada ou natural dos empregados e chefes dos hotéis onde pernoitávamos), andar de jipe pelo deserto, experimentar coisas exóticas como seja dormir numa tenda, ouvir comentários depreciativos dos hábitos e modo de vida dos naturais. Apenas uma coisa falhou, que foi ver o espetáculo que é olhar para o céu numa noite escura, sem nuvens e num lugar sem luz, que só consegui apreciar em África nos meus tempos de menino e moço: sabia que a lua se escondia de madrugada, levantei-me de propósito para ver o espetáculo, mas foi muito pobre, havia ainda muita luminosidade, viu-se alguma coisa mas muito pouco.

A vida no deserto não é fácil. Sem água não há vida, no deserto a água é um bem muito escasso. Vive-se junto a oásis, que podem secar devido ao consumo ou à falta de chuva, quando tal sucede há que procurar outros, é o que fazem as tribos nómadas. As tempestades são de areia, nunca passei por nenhuma mas imagino que será muito pior do que andar à chuva. Enfim, é difícil viver no deserto, pessoalmente acho que só uma religião muito forte com um código de conduta muito rigoroso como é a muçulmana, permite aos magrebinos superar as dificuldades e conseguirem viver nesse lugar inóspito, mas de uma beleza muito própria que é o deserto.