Cardus Edição 39, 01-09-2018
A foto desta quinzena tem dezasseis anos, foi tirada em 2002. Não tem nada de especial, apenas uma fila de viaturas que aguarda que a cancela abra para poderem seguir viagem. A cena passa-se na Alemanha, a estrada era muito popular na antiga RDA, por ela viajei de Berlim até Greifswald, uma cidade simpática no Norte, junto ao Báltico, onde o meu empregador tinha uma fábrica, e onde eu tinha agendada uma reunião de trabalho.
A maior parte da viagem foi feita em território da ex-RDA. A reunificação alemã tinha acontecido doze anos antes, havia já muita coisa alterada, por todo o lado havia autoestradas em construção, pontes e viadutos, mas havia ainda cancelas, coisa rara senão mesmo inexistente na Alemanha do lado.
Tratou-se duma viagem inesquecível, pois foi-me possível ver o que hoje em dia provavelmente já não é: foi um prazer atravessar Berlim e ver ruas com nomes como Angola, Amílcar Cabral, Agostinho Neto e outros de que já me lembro, mas nossos conhecidos; os semáforos típicos do peão em movimento; ainda alguns Trabant em circulação; as cidades e vilas ao longo da estrada, com os prédios simplórios mais ou menos iguais em geometrias cuidadas e alinhadas; os campos infindáveis pintados de amarelo, que podem ser vistos da lua, segundo me disse um dos meus anfitriões; as casas geminadas, com um pequeno jardim à frente e um pátio atrás, o sonho de um pequeno alemão, como também me disse o mesmo anfitrião; o Báltico na ponta final, onde as marés não existem, onde podemos dormir descansados deitados na toalha da praia.
Os alemães do Leste, cooperativos, sem a agressividade comercial típica dos vizinhos do lado, roupas simples, fatos e gravatas apenas em alguns responsáveis incomodados pelas novas regras do corporate. A mesma pontualidade, a mesma concentração e objetividade nas reuniões, mas um ar mais humano e menos sisudo, menos máquina de fazer dinheiro.
Cheguei a Greifswald já noite, não me foi possível descobrir rapidamente o hotel (na altura ainda não havia GPS). Fui parar ao centro, parei o carro e com o mapa na mão pedi ajuda a dois jovens. Explicaram-me, vi que estava relativamente longe, havia muita curva e contracurva até lá, um dos jovens olha para o outro, este confirma com um movimento da cabeça, fazem-me sinal para os seguir, empoleiram-se numa mota, sigo atrás deles, depois de algumas voltas fazem-me sinal para parar, apontam-me para o hotel ao lado, dizem-me adeus e desaparecem na curva adiante. Estava na Alemanha, mas não era bem na Alemanha que estava.
Provavelmente já não existem alemães do Leste, agora são todos alemães, a RDA morreu, nesta altura já não deve haver uma única cancela, para nos obrigar a parar, apreciar por momentos o que nos rodeia, descontrair um pouco, dar a vez ao comboio e então sim, retomar a nossa viagem, sem pressas de chegar ao fim, sem pressa de partir para outra, e mais outra, sem a obsessão de um grande carro, ou de uma grande casa, apenas vivendo o sonho dum pequeno alemão.