Cardus Edição 38, 15-08-2018

Turismo de Habitação

Ai santo Deus vizinha,
sossego, nunca mais.
Aí vem mais uma leva
de vizinhos ocasionais.

Ai santo Deus vizinha,
veja ali aquele, com a carrinha:
anda para trás e para a frente,
bateu no vaso, quebrou-me a florzinha.

Ai santo Deus vizinha,
lá vão eles em procissão,
seguem em direção à praia,
todos num grande vozeirão.

Ai santo Deus vizinha,
o meu homem está danado.
É só jeeps grandes e largos,
não consegue fazer o grelhado.

Ai santo Deus vizinha,
temos de ir por outro lado.
Por aqui não passamos,
está ali um carrão especado.

Ai santo Deus vizinha,
nem os cães conseguem descansar.
Até o velho Cansado
já teve de ladrar.

Ai santo Deus vizinha,
temos a casa para limpar.
Já passa do meio dia
e eles sem pressa de abalar.

Ai santo Deus vizinha,
agora é que está o baile armado.
Estão para ali aos berros,
uns com os outros malcriados.

Ai santo Deus vizinha,
estes, finalmente, puseram-se a andar.
Descansemos agora um bocadito,
a próxima leva não deve tardar.