Cardus Edição 36, 15-07-2018
As casas do sabugueiro são de pedra
forte, escura, pesada, dura de cortar.
Pedra resistente ao vento, ao frio, à quebra,
às barracas que lhe querem o lugar.
Os sons do Sabugueiro são naturais:
a música contínua da água correndo;
os galos nos cantares matinais;
o badalar das cabras em movimento.
As mulheres idosas do Sabugueiro,
usam todas a mesma farda.
Conversam num silêncio perfeito,
olhos na igreja, no céu e no nada.
Os velhos do Sabugueiro olham,
têm a serra e a natureza por perto.
O calor tórrido no verão amargam,
o frio, o gelo e a neve no inverno.
Os cães do sabugueiro descansam,
esperam mais um dia ou comida.
Velam pelas coisas, pelos que os atam
ao lugar, ao sítio, à vida.
A vida no Sabugueiro não é fácil,
É a vida dos que lá tem o seu lugar.
Ladram os cães do Sabugueiro,
há ruídos novos no ar.
Monstros de lata, parcos de respeito,
entram pelas ruelas, invadem o lugar.
Falam rápido e alto, bocas escancaradas
mostram dentes alinhados, certinhos, nos lugares.
Cores garridas, cheiros ativos, peles bronzeadas,
taipais escuros para esconder os olhares.
Sossegam os cães do Sabugueiro,
já os conhecem, são todos iguais.
Dois, três dias é vê-los a desandar.
A vida do Sabugueiro pode continuar.
A vida no Sabugueiro não é fácil,
É a vida dos que lá tem o seu lar.