Cardus Edição 35, 01-07-2018

Igreja de Miraflores

O edifício da foto desta quinzena encontra-se em Miraflores, destaca-se nitidamente dos edifícios à volta, dá também nas vistas quando se segue pela CRIL em direção a Algés e se olha para a direita. A cruz indica-nos que se trata duma igreja que, neste caso, pertence à paróquia de Algés. Já há muito tempo que tinha reparado nela, tive agora a oportunidade de a fotografar e conhecer melhor, a internet e uma ida à missa deram uma boa ajuda.

A primeira pedra do templo foi lançada em 1 de junho de 2002 numa cerimónia em que estiveram presentes: Isaltino Morais, na altura Ministro das Cidades; D. José Policarpo, então Cardeal Patriarca de Lisboa e a Dr.ª Teresa Zambujo, presidente da autarquia à altura. Lançou-se a primeira pedra e tudo ficou à espera das restantes, que só começaram a surgir em 2007, a construção parou ainda em 2010, foi finalmente inaugurada (dedicada à Santíssima Trindade) em 30 de maio de 2015, o que perfaz uma espera de treze anos para que a paróquia de Algés pudesse ter a igreja desejada.

A igreja foi desenhada por Troufa Real, um arquiteto muito próprio e polémico, cujos trabalhos conheço desde os meus tempos da Angola colonial, quando nas ruas de Luanda começaram a aparecer agências bancárias nada convencionais, muito vistosas e polémicas, uma característica que o arquiteto parece ter mantido ao longo do seu percurso profissional. Este projeto mantém o estilo, os epítetos à igreja são vários, cito, apenas, foguetão e torre de controlo (há mais, muitos mais), felizmente a cruz (que era para ficar no topo e ficou em baixo ao lado da entrada) indica-nos claramente que se trata duma igreja. De acordo com o arquiteto, o que o levou a aceitar o convite da câmara foi a motivação para compreender a geometria sagrada e o lado simbólico da relação entre o templo e as pessoas e o projeto baseia-se no infinito como horizonte do Homem, motivações e linhas orientadoras estas muito para além da capacidade de interpretação do pobre autor destas linhas.

O cilindro tem cerca de trinta metros de altura, teria trinta e cinco se a cruz tivesse ficado no topo. Uma escadaria larga dá acesso à entrada, existem também rampas bem integradas na estrutura para quem não gosta de escadas ou não pode seguir por elas. A pintura é o branco generalizado, os azulejos de Querubim Lapa (em tons de branco) projetados para as paredes do exterior ficaram no papel, por esta e outras razões o génio zangou-se com o pároco comedido nos custos, deixaram de se falar, o arquiteto voou para longe, o pároco ficou com o seu controlo de custos mais facilitado.

A entrada tem três portas, uma grande e central, duas mais pequenas de cada lado.  Só a pequena da direita estava aberta, foi por ela que entrei para observar o interior. Continuamos num espaço cilíndrico, a cor continua o branco imaculado, mesmo a zona do altar é de mármore natural, mas a fugir para o branco. O teto da igreja é aberto, apenas protegido por uma estrutura de vidro, a luz natural entra efusivamente pela claraboia, o escuro típico das igrejas e conventos aqui não existe. Por cima e atrás do altar entra ainda mais luz, esta aqui filtrada for um conjunto de painéis de vidro em tons predominantes de azul, virados para o pôr do sol, o que tem tanto de bonito como de incómodo para a vista, para quem assiste à missa de fim de tarde como foi o meu caso.

A igreja tem espaço para cerca de trezentas e oitenta pessoas, cerca de cem assistiam à missa, todas bem arranjadas, o que me fez lembrar os tempos do antigamente, quando era obrigatório ir à missa ao domingo com o melhor fato vestido. As paredes estão praticamente vazias, apenas meia dúzia de imagens religiosas pequenas estão colocadas na zona inferior da sala. Atrás do altar está colocado um quadro de grandes dimensões, representando com toques de modernidade a Santíssima Trindade, ao que parece inspirado numa obra do pintor russo Andrei Rublev. O Sacrário está à parte do altar, uma caixa simples, suportada por um pilar ainda mais simples, o interior da igreja é todo de uma simplicidade atraente.

Não há bela sem senão, a acústica da sala não é das melhores. Talvez pelo facto de a igreja estar vazia, a música vocal, a componente mais envolvente do ritual da missa, sai aqui muito áspera, a sala tem demasiado eco.

Cardus