Cardus Edição 32, 15-05-2018
As paragens de autocarro são mais sítios de espera do que propriamente de paragem. Umas vezes sozinhos, outras vezes acompanhados, a espera também serve para ordenar os pensamentos do dia, ou para ouvir histórias de vidas, o que às vezes sucede quando a mesma é longa e há que a ocupar com qualquer coisa.
Quando chegou, a primeira coisa que me perguntou foi se já lá estava há muito tempo. Respondi que sim, há pelo menos 10 minutos, o que descansou a senhora, ainda vinha assim a tempo do autocarro das cinco e meia, se o perdesse só chegava a casa por volta das sete, um bocado tarde para quem ainda tinha de ir fazer o jantar.
Senhora de meia idade, trabalhadora das limpezas, começava a manhã muito cedo, juntamente com mais duas colegas, num escritório da Consiglieri Cardoso, até às nove tinham de pôr tudo limpo e arrumado, o pessoal que entra a essa hora gosta das coisas assim. Contrastes da organização do trabalho, uns recebem porco e desarrumado e entregam limpo e arrumado, outros recebem limpo e asseado entregam sujo e amontoado.
O dia não acabava às nove, seguia depois para Leceia onde, uma vez por semana e até à hora do autocarro, se ocupava da limpeza de uma vivenda, cujos moradores tinham tempo para tudo menos para limpar o lixo que faziam. Tinha ainda mais uma casa para tratar, esta segunda na Amadora, onde morava.
Para além dos cabelos aloirados, não se notava mais nada de artificial na senhora, make-up só de suor e sal. Mãos calejadas, rugas na cara, um olhar sério, no corpo notando-se já as maleitas do trabalho duro e ingrato, as fiadas de dentes já com muitas falhas pelo meio. Contudo, nenhum queixume, nenhuma revolta, um modo de vida assumido, fazia a sua vidinha, o ordenado e os biscastes chegavam para as necessidades, a única coisa que queria era que Deus não lhe faltasse com vida e saúde. A conversa não foi nenhum choradinho de desgraças, eu perguntava a senhora respondia, sobre a família como não perguntei nada, também não disse nada.
Entretanto chegou o 106, entrou tal como eu, sentou-se ao lado de uma amiga, seguiram numa conversa cúmplice até à Amadora, onde saíram, votos de boa viagem para mim antes de largar o autocarro.
Há trabalhos e trabalhos uns mais fáceis outros mais difíceis, uns mais agradáveis outros menos, uns melhor pagos que outros. As mulheres a dias - reparei agora que só há mulheres nesta área -, provavelmente gostariam de fazer outras coisas, mas o percurso de vida certamente não lhes permitiu. Podíamos libertá-las um pouco, por exemplo, limpando a nossa própria porcaria, mas não, somos muito finos, somos uns beneméritos, damos trabalho a quem precisa. Ainda estamos muito longe realmente de uma sociedade justa, equilibrada, humana, com igualdade de oportunidades para todos.