Cardus Edição 31, 01-05-2018

Capelas Imperfeitas

A crónica da quinzena é sobre a Batalha, que visitei recentemente, palco das comemorações do primeiro aniversário da associação de voluntariado à qual pertenço. O menu compunha-se de quatro pratos: mosteiro, almoço na estalagem, grutas da Moeda e museu da vila. Mais de 30 pessoas, todas com mais de 55 anos, idade mínima necessária para integrar a associação.

Comecemos pelo museu da vila (MCCB, Museu da Comunidade Concelhia da Batalha), foi também por aqui que o dia começou. É um espaço pequeno, duas ou três salas, dois pisos, um local aconchegador como se diz em português carinhoso. Tem um pouco de tudo, ao contrário da maior parte dos museus que têm muito do mesmo. É um lugar onde apetece levar crianças curiosas, o material exposto ajuda a responder às perguntas que os putos fazem, tem a grande vantagem de se poder mexer e tocar, o que também são coisas que os putos gostam de fazer. A peça mais vistosa é uma estátua de pedra calcária de um magistrado romano, com dois metros de altura e uma tonelada de peso. Esta peça foi desenterrada no local, quando, nos anos 60, foi limpa a zona urbana à volta do museu e rearranjado o espaço. O movimento de terras descobriu muita pedra histórica, o magistrado foi aproveitado, algumas mais notórias também, muitas foram abandonadas, outras enterradas estavam, enterradas continuaram. Há muita história enterrada na Batalha, tal como em Lisboa, tal como no mundo todo, quem gostar de arqueologia tem muito por onde se distrair.

O largo fronteiriço ao mosteiro está cheio de gente e de movimento. Realiza-se a cerimónia comemorativa da batalha de La Lys (uma página nada brilhante da nossa história militar), cerimónia que se realiza aqui todos os anos. Estava marcada para ontem, foi adiada para hoje, de modo a ter a presença do presidente que andava por fora. Tudo bem, altera-se o programa, passamos o mosteiro para o fim da tarde, vamos ao almoço e a seguir às grutas.

Segue-se então o almoço, vinhos e aperitivos da região, farófias para sobremesa, arroz de pato para prato principal. Rápido que o autocarro está à espera.

A serra de Aire e Candeeiros é uma serra de pedra calcária, há grutas por todo o lado, muitas delas aproveitadas por particulares para investimento turístico. As grutas da Moeda estão neste caso, temos visita guiada, gentil oferta do proprietário, uma atenção à organizadora do evento, natural e ativista da terra. Das grutas não há muito a dizer, galerias que desembocam em espaços abertos, decorados de cima abaixo com estalagmites (o guia diz que crescem um cm por século) e estalactites de todos os tamanhos e feitio. Muita humidade, água por todo o lado, pequenas cascatas que alimentam pequenas piscinas, 18º o ano todo. As grutas foram adaptadas para visitantes humanos, o chão é liso, há escadas, luzes por todo o lado, desce-se a 45 metros, anda-se cerca de 350 metros. Vêem-se alguns ossos, o guia diz que são de animais que provavelmente caíram por algum algar (uma espécie da claraboia) e não conseguiram sair.

É então hora de se visitar o mosteiro, o Marcelo já seguiu para outra, o largo está livre, a tropa vai desmontando os palanques. Mais um guia à nossa espera, altamente especializado na história do mosteiro e da batalha que o fez nascer, sabe tudo e mais alguma coisa, os reis e as rainhas, os mestres que dirigiram a construção, as técnicas de construção, os símbolos, as ordens, amores e desamores dos protagonistas, fases da construção e de degradação. A informação saía a jorros, qualquer que fosse a pergunta a resposta estava lá, muitos anos de investigação histórica, muitos anos provavelmente a dizer a mesma coisa e a ouvir as mesmas perguntas.

Deixo aqui três referências do mosteiro: a primeira são os pórticos, autênticos filigranas em pedra, a segunda é a sala do capítulo com a famosa abóbada e o túmulo do soldado desconhecido que conferem alguma solenidade ao local e a terceira são as capelas imperfeitas (ou inacabadas) que merecem uma nota especial.

Um conhecido meu, que passou algum tempo em Macau, foi um dia convidado para ir ao último andar de um dos vários casinos que existem no território. Chegado lá acima, para sua surpresa, deparou-se-lhe um céu azul e um sol radioso, coisa rara senão mesmo impossível em Macau. Deliciou-se por alguns momentos com a vista, descobriu, entretanto, que a paisagem era artificial o que ele estava a ver eram pinturas no teto do arranha-céus, de uma grande autenticidade como se pode imaginar. Pois bem, nas capelas imperfeitas, se olharmos para cima, também vimos o céu, mas aqui não é pintado ou artificial, é um céu verdadeiro, com vida, mutante, umas vezes claro e radiante, outas vezes mais sombrio, outras vezes mais choroso, podemos inclusivamente ser brindados com as suas lágrimas se não nos refugiarmos a tempo. É assim, estamos num claustro espetacular de paredes e nichos (capelas) artisticamente trabalhados, falta-lhe apenas a abóboda, um teto que fosse. Quando chove, nada a fazer, há que procurar abrigo, coisa que não pode fazer o rei D. Duarte e esposa (D. Leonor), cujo túmulo se encontra numa das capelas: a vida é assim, mesmo na realeza morta, há uns que são mais que outros, uns dormem debaixo de um teto, outros ao relento.

Há muita coisa inacabada em Portugal e há ainda mais coisas que embora acabadas estão em ruínas. A quantidade de palacetes e casas senhoriais abandonadas em Portugal é enorme, apercebo-me disto nas voltinhas que dou pelo país. Estão quase todos em ruínas ou bastante degradados, é uma pena não haver dinheiro ou vontade, para recuperar estes monumentos urbanos, cheios de história, de glórias passadas e de arte dos tempos em a arquitetura não era quadrada.