Cardus Edição 30, 15-04-2018

De Abrantes ao Oriente

Na foto desta semana pode observar-se um momento temporal no cais de acesso aos comboios da estação de Abrantes, onde começa esta viagem que vai até ao Oriente.

A estação de Abrantes tem a traça nostálgica das estações do antigamente, embora não seja das mais representativas ou vistosas: relógios de ponteiros, sala de espera, bilheteira, gabinete do chefe da estação, retretes (uma indicação vernácula muito mais clara e viva que o inócuo e desalmado WC), tem também algum equipamento mais moderno, como sejam, o placard eletrónico com indicação das chegadas e partidas (informação sobre os atrasos incluída) e um sistema sonoro de voz robotizada, através do qual os passageiros são alertados para a entrada do comboio na estação ou outras informações pertinentes.

Senhores passageiros … o comboio … intercidades … longo curso … IC540 … procedente … de … Covilhã … e … com destino … a … Lisboa … Santa Apolónia … vai dar entrada na linha … 1 …. efetua paragens em … Entroncamento … Santarém… Vila Franca de Xira … e … Lisboa … Oriente.

O cais está relativamente cheio, os passageiros tomam os seus lugares, para a carruagem da frente sigo eu, alguns idosos e outros passageiros entre os quais uma jovem, portadora duma caixa com buracos onde, quietinho, segue um animal de estimação, coisa que já tinha visto nalguns aeroportos, mas pela primeira vez num comboio.

A viagem até ao Entroncamento é toda realizada ao longo do vale do Tejo, começa-se na margem esquerda e termina-se na margem direita. A travessia do rio é feita em Constância, por cima duma ponte metálica tipo Eiffel, alguns minutos depois de se rasar uma fábrica de celulose, que emite um cheiro pestilento, meu conhecido, que me informa que já estou perto de Abrantes, quando venho pela autoestrada. Há muita estação fechada (abandonada) ao longo da linha, algumas em perfeita ruína (vê-se muita ruína pelo Portugal fora). A densidade urbana é pequena, passa-se apenas por alguns aglomerados, aqui é melhor regressar à leitura ou olhar por cima, os quintais virados para os carris, não são propriamente uma beleza digna de se ver. Rodamos pela linha da Beira Baixa, a carruagem agita-se bastante, o rato já me ficou pendurado não sei quantas vezes, não se consegue teclar, só dá mesmo para pegar no livro que anda sempre ma mochila e tentar ler alguma coisa.

O bichinho saiu da gaiola, vai agora ao colo da dona, para já tudo calmo …

Próxima paragem … Entroncamento.

O Entroncamento é um grande eixo ferroviário, uma quantidade enorme de linhas, carruagens e máquinas por todo o lado, mesmo depois de se largar a estação, são armazéns e hangares que nunca mais acabam. O Museu Nacional Ferroviário está aqui localizado, um dia saio no Entroncamento, visito-o, e sigo viagem, acho que não vou dar o tempo por perdido.

Vamos agora em direção a Santarém, atravessa-se a lezíria, o Tejo sempre por perto, algumas vezes quase beijando os carris (tem chovido um pouco). Nalguns troços o comboio circula ladeado por muralhas de terra e verde, provavelmente para se proteger de algum abraço mais forte do companheiro do lado.

O bichinho ladrou lá atrás, quase todas as cabeças rodam na direção do animal, a dona pede desculpa com um pequeno sorriso, as cabeças voltam à posição inicial. Tudo tranquilo outra vez, incluindo o canino, que a dona acalmou com falinhas mansas ao ouvido e alguns beijinhos à mistura. Ficamos a saber o nome do bichinho: “amor”.

Viajamos agora na linha do Norte, a carruagem abana menos, já dá para ver o email e ir alinhando uma notas sobre esta crónica.

Próxima paragem … Santarém.

De Santarém conheço muito pouco, praticamente estou limitado às Portas do Sol, donde se tem uma vista panorâmica da lezíria e do rio. Chamam-lhe a cidade do gótico, fica num alto, que é uma coisa que me agrada. Na minha visão bucólica do ordenamento urbano, as cidades deveriam ocupar os altos e deixar os baixos para a agricultura e natureza. No caso da lezíria os altos são ainda mais importantes, o Tejo às vezes dá-lhe para as cheias, invade tudo o que está em baixo, não pede licença para entrar onde quer que seja.

Rola-se agora em direção a Vila Franca de Xira, atravessa-se a lezíria grande, passa-se por uma série de pontes icónicas, a de Salgueiro Maia logo à saída de Santarém, a ponte da Lezíria junto ao Carregado (14 km de autoestrada assentes em pilares sobre a lezíria, com o problema de terminar bruscamente numa estrada nacional estreita) e finalmente a ponte de Vila Franca, obra de Edgar Cardoso, logo à entrada da vila que lhe dá o nome.

O amor voltou a ladrar. Afinal ladra sempre que algum animal (de duas patas) se especa perto da dona. Culpa desta, o lugar que reservou é junto ao WC, onde é preciso ir de vez em quando, e às vezes é preciso esperar cá fora pela vez.

Próxima paragem … Vila franca de Xira.

A estação de Vila Franca tal como a de Santarém, está alinhada com o modelo arquitetónico típico das estações antigas, com a curiosidade de estar decorada com vistas azuladas dos locais e costumes mais representativos da região, segundo me pareceu com o que pude observar nos escassos segundos em que o comboio esteve parado (nos meus tempos do CFB, podia-se sair do comboio e dar uma voltinha pelas redondezas sem problemas, o comboio apitava quando estava pronto, os passageiros recolhiam, esperava ainda por algum retardatário, só arrancava quando o revisor dava ordem).

Já estamos assim em andamento, agora sou eu que tenho de ir à retrete, que por acaso está ocupada. O amor, como não podia deixar de ser, ladrou, olhei para a dona, olhei para ele, ambos tensos com os olhos postos em mim: a rapariga é nova, cuidada, expecta uma qualquer reação da minha parte. Há que nos adaptarmos ao mundo moderno, sorrio para os dois, a tensão desaparece, o amor passou de ladrar a rosnar, à espera da festinha que os olhos da dona me pediam, felizmente a retrete vagou, quem viu a pressa com que entrei deve ter pensado que estava numa grande aflição.

A paisagem é agora densamente povoada. Armazéns, prédios, fábricas, ruínas, oficinas, grafitis, lixo, um caos perfeito. É altura de desligar o PC, arrumar o livro e os apontamentos, fechar a mochila e fechar os olhos.

Próxima paragem … Oriente.

E eis-me finalmente no Oriente, onde esta crónica acaba, porque a viagem continuou ainda pela linha de Sintra e um autocarro truculento na ponta final. Esta estação foi construída nos tempos da EXPO e foi desenhada por um senhor muito conhecido que dá pelo nome de Calatrava. Não sei o que lhe foi encomendado, sei apenas que a estação parece um espaço feito para correr com as pessoas de lá para fora. Um monstro aberto de betão, frio, sem alma e sem cor, meio estripado, vento frio e forte por todo o lado, só os abrigos colocados nalguns patamares conseguem dar algum conforto aos passageiros.  As palmeiras de que muito se falava na altura da inauguração estão cheias de ferrugem, o cais está deserto, as pessoas só sobem para o cais quando o comboio está a entrar na linha. Quando se chega há que fugir rápido, fujo eu, foge a rapariga e o amor. Junto à escada, olham para trás, reconhecem-me, sorriem os dois, sorrio também, a vida é para ser levada a sorrir, é o que me recomendam familiares e amigos.