Cardus Edição 28, 15-03-2018
A Oliveira da foto, vive em Cascalhos, freguesia de Mouriscas, concelho de Abrantes. Como se vê está bem evidenciada no local, mas não é fácil dar com ela, não existem muitas indicações para se lhe chegar, a regra é parar no café Dalila e perguntar. O pessoal do café e os clientes são simpáticos, se virem que a nossa capacidade de chegar ao local não é grande até nos levam lá.
O que é que tem a oliveira de especial? Nada mais nada menos, é o ser vivo mais velho de Portugal. Tem a bonita idade de 3350 anos e não estamos a falar de cor, a idade foi cientificamente comprovada em 2016 pelo professor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) José Penetra Louzada, que descobriu o único método (não destrutivo) existente a nível mundial para datar árvores antigas quando o seu interior se encontra oco, como é o caso das oliveiras milenares.
Assumindo que uma geração se renova em 30 anos, quando a oliveira nasceu, viveria algures o meu 110ésimo avô, que não ficou para a história como ficaram o faraó Ramsés II e Moisés, todos contemporâneos uns dos outros, isto, portanto, à volta de 1250 anos a.C. Todos morreram passados uns anitos, a oliveira não, passaram-lhe pela frente celtas, iberos, lusitanos, celtiberos, cónios, romanos, visigodos, alanos e árabes, anda agora a aturar portugueses, com a frescura que ainda tem, ainda vai provavelmente conhecer outra gente ou nacionalidade, não me parece que vá alimentar a lareira de alguma casa da vizinhança, o que já esteve para lhe suceder, é agora uma celebridade, só um cataclismo a pode destruir.
Alguém gostaria de viver mais de 3350 anos?
Pessoalmente acho que as coisas estão bem como estão, não estaria nada interessado a andar a penar por aqui tanto tempo. Tenho 71 anos já não me lembro da maior parte das coisas do passado, faço ideia a minha memória se já andasse por cá há milhares de anos. Felizmente a vida não é eterna, todos os seres vivos nascem e morrem, todos têm uma esperança média de vida: as bactérias vivem algumas horas, alguns insetos um dia, os cães quinze anos, nós à volta de cem, as oliveiras, pelos vistos, vivem milhares. Todos temos algo em comum: mantemos uma coisa chamada mundo vivo, nascemos, evoluímos, geramos vida, entramos em decadência e morremos quando a nossa energia acaba ou o mecanismo deixa de funcionar. Enquanto por cá andamos, muito ou pouco conforme aquilo que nos tocar, há que fazer pelos sentimentos, segundo António Damásio são eles que nos fazem evoluir, que permitem que as gerações sucessivas sejam cada vez mais aprimoradas, que fazem com que o homem seja o ser mais evoluído do universo (do nosso) por onde passamos efemeramente, sejam horas, dias, anos ou milénios …