Cardus Edição 27, 01-03-2018

Europa com Fronteiras

Circular hoje em dia pela Europa, é qualquer coisa de aberto e de liberdade. Entramos num país e saímos, sempre a direito, sem qualquer barreira policial ou fiscal, muitas vezes só reparamos que estamos noutro país quando os sinais mudam, ou a publicidade começa a aparecer numa linguagem diferente, ou quando num repente nos aparece o símbolo da EU com o nome do país no meio.

Circula-se assim por toda a Europa? Toda, toda? Não!

Viajando de autocarro da Suécia para a Noruega para ir apanhar o avião de Oslo para Lisboa, eis que de repente deparo com uma fronteira, com controlos de passaporte e tudo, com revistas à bagagem, e a ter de explicar o que é que ia fazer à Noruega, e o que tinha feito na Suécia, confesso que até me passou pela cabeça que se calhar era preciso um visto para entrar no país. Enfim correu tudo bem, comigo e com todos os passageiros do autocarro, não era necessário visa, para além do atraso de 10 minutos, não houve mais consequências. Claro que já não me lembrava que a Noruega não pertence à EU, nem quer pertencer, é uma pena, num mundo cada vez mais global, a cultura do isolamento não tem futuro.

Bom, passado o pormenor da fronteira, houve tempo em Oslo, para conhecer a ópera, um edifício icónico inaugurado há cerca de dez anos, à base de mármore e vidro, que é a foto desta quinzena. Por fora era tudo branco, neve por todo o lado, o inverno nórdico é assim, muita brancura, pouca luz, só se está bem dentro de casa ou dentro da ópera, a apreciar a arquitetura interna, e a pensar quão bom seria ouvir “a Tosca”, pena o espetáculo só começar já noite dentro, fosse mais cedo e lá perdia o amor a 60 euritos, um dia não são dias. A sala deve ter umas condições acústicas extraordinárias, o próprio átrio dá logo uma ideia do que deve ser por dentro. À semelhança do nosso MAAT, a ópera é também um miradouro, pode-se circular pelos tetos, tirar umas fotos da baía (fiorde), melhor no verão, porque no inverno só quem gostar de brancura e gelo.

Tinha ainda planeado uma visita ao museu de Munch, mas andar cerca de 800 metros, a caminhar sobre meio metro de neve, com alguma a entrar-me pelos sapatos dentro e outra a tapar-me a visão, para além do pingo permanente no nariz, nem “Os Gritos” apelativos do Munch me convenceram. Tratei foi de apanhar o autocarro para o Aeroporto onde cheguei com seis horas de antecedência, um recorde para quem até já tinha o check-in feito.

Não quero ser mauzinho, não sei se por causa da fronteira, se por causa do nevão, mas o que achei melhor de Oslo foi mesmo o Aeroporto: foi lá que apanhei o avião para Lisboa, que saudades, dos sons, da língua, dos cheiros, do sol, do céu azul de Portugal.