Cardus Edição 26, 15-02-2018
As pontes são elementos de união, de liberdade, facilitam e promovem as relações entre as pessoas, combatem o isolamento. Construam pontes em vez de muros é uma máxima muita vez utilizada para estimular o relacionamento entre pessoas ou povos, alargar horizontes, abrir mentalidades, integrar a diversidade.
Pessoalmente não passo indiferente por nenhuma ponte, mesmo que só por cima. Em todas elas vejo elementos de interesse, seja numa secular ponte romana, seja numa ponte metálica tipo Eiffel, seja numa moderna ponte de betão. Independentemente das questões da construção, todas elas são obras de arte, aliás é assim que são designadas na engenharia de estradas. Quem, por exemplo, olhar para a ponte da Arrábida a partir da Foz, o que tem ali à frente é mesmo arte. Quem pintou o quadro foi o artista Edgar Cardoso, um dos grandes nomes na arte de fazer pontes.
A ponte da foto é uma das muitas que existem pelo mundo fora. Neste caso, juntamente com outras duas mais pequenas, liga a ilha de Tjörn à parte continental da Suécia, isto mais ou menos 60 km a norte de Gotemburgo. Todas as pontes têm a sua história a de Tjörn não foge à regra:
A ponte foi construída num tempo recorde de 17 meses e inaugurada em 1981. A história começa antes da inauguração, mais precisamente à 1:30 da manhã do dia 18 de janeiro de 1980, uma noite escura e fria com nevoeiro cerrado e intenso, quando um navio graneleiro colidiu com o arco da ponte então existente (ponte de Almoe) que havia sido inaugurada cerca de 20 anos antes. A colisão provocou o colapso da ponte, com uma boa parte a cair em cima do navio que, contudo, apenas ficou com a torre de comunicações quebrada. Até o trânsito ser interrompido, cerca de 40 minutos depois, sete carros caíram no canal tendo morrido oito pessoas. Do lado continental não houve mais quedas porque, o motorista dum camião, ao entrar na ponte, achou estranho não ver as guardas, pelo que resolveu parar, o que fez em boa altura, já que ficou a um metro de se precipitar no abismo. O gelo, o nevoeiro, o facto de a torre de comunicações do navio ter sido destruída, eventualmente a hora do acidente, foram fatores que impediram que o acidente fosse rapidamente comunicado e a ponte (ou a estrada) ser encerrada rapidamente. A ponte de Almoe morreu nessa trágica data, 17 meses depois nasceu, então, a de Tjorn, como se vê, uma ponte suspensa, com menores riscos de colisão. Da ponte defunta apenas ficaram as fundações dos arcos ainda hoje bem visíveis no local.
Deixando a tragédia e voltando à vida, é de realçar que a ponte se encontra numa zona paisagística típica da Escandinávia (muitas ilhas, muita pedra e muita água) duma beleza própria, que pode ser apreciada enquanto se degusta uma boa refeição num restaurante simpático, amplo de espaço e vistas, situado logo à saída da ponte na direção da ilha. Mesmo para uma bolsa portuguesa o menu é acessível, a comida não é má, é tipo regional, é o que procuro comer, quando ando por fora.