Cardus Edição 42, 15-10-2018
A humanidade desde sempre se fixou em locais onde a água fosse acessível. Um ser humano pode passar quase um mês sem comer mas apenas resiste a alguns dias sem beber água potável.
Assim, não é de surpreender que tantas povoações e cidades se desenvolvessem junto às margens dos rios ou de oásis. De uma forma geral, onde não há água fala-se em deserto, sinal de inabitabilidade para os humanos.
Debaixo de terra também existe água. Consoante a região, a profundidade a que se encontra o lençol de água subterrânea pode ser de poucos metros, tornando viável a abertura de poços. Assim, nos tempos em que o abastecimento de águas municipais ainda era uma miragem, era natural que os aglomerados populacionais se situassem onde os níveis freáticos permitissem uma extração manual e fácil de água subterrânea.
A abertura de um poço era assim a primeira obra a realizar quando se adquiria um terreno para a construção de uma casa. Havendo água, o terreno seria habitável e a areia retirada era depois usada na construção da casa. Em alguns terrenos ainda existem poços abandonados, sonhos de alguém que aí iria construir uma casa mas que nunca chegou a concretizar. Com a água vinham as condições de autossuficiência necessárias para alimentar famílias, para ter uma horta, um pomar, criar galinhas, patos, coelhos, porcos etc, enfim a sobrevivência das famílias estava assegurada.
Existem assim hoje bairros completos, onde cada casa ainda possui o respetivo poço. Motobombas elétricas ou de motores de combustão interna permitem agora ir buscar água mais fundo e a abertura de furos mais estreitos colocou o tradicional poço praticamente em desuso. Também, é cada vez mais frequente a existência de locais abastecidos por serviços municipais com água potável e de qualidade controlada. Os poços ainda existentes tendem a degradar-se devido à falta de manutenção. Poços abandonados acabam por ser tapados ou aterrados.
A existência de um poço é, no entanto, algo precioso que importa manter. Um poço é fonte de vida. A água fresca sai à temperatura das profundezas da terra, tendo um sabor na maior parte dos casos bastante agradável. Cuidados há a ter com análises para determinar a pureza da água, mas em muitos poços a água é potável e adequada ao consumo humano.
Nunca se sabe o que poderá acontecer em cenários catastróficos humanos ou naturais. Mas garantidamente os humanos desprevenidos poderão ser os primeiros a sofrer cortes de abastecimento de águas municipais, enquanto os habitantes em moradias com poço continuarão a desfrutar tranquila e agradavelmente desta fonte quase inesgotável de vida.
Felizmente nem todos os poços estão abandonados. Há poços bem mantidos, onde a água jamais faltou e em torno dos quais fervilha vida, com regas automáticas que mantêm hortas e pomares e onde se fazem almoços, churrascos, enfim, locais plenos de diversão com os amigos. O poço também serve para isso e nunca se sabe se servirá para garantir a autossuficiência em tempos de crise.
Carlos Cardeira