Cardus Edição 2, 17-02-2017

D. Maria II

Os primeiros selos postais portugueses são naturalmente inspirados no primeiro selo inglês. Os dois primeiros selos foram emitidos no dia 1 de julho de 1853 com um valor de 5 e 25 reis. No dia seguinte foi emitido o selo de 100 réis, a 22 do mesmo mês foi posto à venda o selo de 50 reis.


Todos os quatro selos apresentavam a esfinge da rainha D. Maria II em relevo.


As biografias dos reis de Portugal são férteis em vidas atribuladas e acontecimentos insólitos como a seu tempo veremos. A de D. Maria II não foge à regra, embora não seja das mais destacadas.


Começa logo porque nasceu no Brasil em 4 de abril de 1819, onde residia a família real portuguesa, donde Portugal foi reinado durante 13 anos. Era filha de D. Pedro IV (1º imperador do Brasil) e da arquiduquesa Leopoldina de Áustria, de quem herdou os cabelos loiros e a pele fina. À boa maneira monárquica foi registada com um nome pomposo, nada menos do que Maria da Glória Joana Carlota Leopoldina da Cruz Francisca Xavier de Paula Isidora Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga, acrescido dos títulos de princesa da Beira e do Grão-Pará.


Na altura não deveria existir ainda a figura do acumular funções porque o seu pai, viu-se obrigado a escolher entre Imperador do Brasil e rei de Portugal (onde D. João V tinha acabado de morrer e D. Pedro era o seu legítimo herdeiro). Escolheu o Brasil, mas, em nome da família, abdicou do reino de Portugal a favor da filha, com um acordo insólito com o irmão D. Miguel, em que este, a seu tempo, claro, casaria com a sobrinha D. Maria. Aos sete anos de idade D. Maria apercebeu-se assim que ia ser rainha e já tinha marido apontado, nada menos nada mais que o seu tio.


O tio estava, contudo, mais interessado em ser rei de Portugal do que príncipe consorte e na primeira oportunidade (dois anos depois) fez-se aclamar rei absoluto de Portugal. O Pai resolve apoiar a filha, acompanha-a pela Europa procurando apoios para a sua causa, não deve ter conseguido muitos, pelo que resolveu abdicar agora do império do Brasil a favor do seu filho e tentar reaver o seu lugar como rei de Portugal (liberal), dando início a uma guerra civil que só termina em 1834 com a vitória dos liberais. Neste mesmo ano morre D. Pedro, e D. Maria, com 15 anos de idade é proclamada rainha de Portugal.


A primeira coisa que uma rainha (ou rei) tem de fazer é assegurar descendência de modo que os negociantes da altura, liderados pela sua madrasta (D. Pedro voltara a casar) acabaram por casar D. Maria II com o príncipe Augusto de Leuchtberg, nada mais nada menos do que irmão da madrasta. D. Maria teria preferido um filho de Luís Filipe de Orleães, que ela conhecera durante uns tempos que passou em França, mas os superiores interesses do estado (sic) sobrepuseram-se à vontade natural da jovem. Azar da madrasta o noivo morre de angina dois meses depois, não há tempo a perder, o escolhido agora é Fernando de Saxe-Coburgo-Gotha, desta vez o casamento é negociado pelo conde de Lavradio, ministro dos Negócios Estrangeiros do primeiro Governo Constitucional. Casam em abril de de 1836, como o marido era a rainha só o soube uns meses depois, quando o dito veio para Portugal exercer funções. A coisa correu bem, o casamento político resultou afinal, ao que reza a história, num casamento exemplar, laivado de ternura, entendimento e amor, excepto na política onde parece que os consortes nem sempre estiveram do mesmo lado.


Marido arranjado há então que tratar da descendência e aqui a rainha também foi exímia: nada mais nada menos do que 11 filhos, infelizmente alguns deles (4) mortos à nascença. O seu estado normal era grávida o que não a impediu de assumir as responsabilidades da governação, segundo a lenda, com verdadeira mão de ferro. Morreu inclusivamente de parto, em 1853, com apenas 34 anos de idade.


D. Maria reinou num período muito conturbado do país com grandes conflitos na sociedade portuguesa, à boa maneira portuguesa diz-se que o seu reinado nem foi bom nem foi mau.


Como gostava e era dedicada às artes deve ter deixado, neste particular, obra. Pessoalmente apenas conheço o teatro D. Maria II, ali mesmo no topo da praça do Rossio.