Cardus Edição 19, 01-11-2017
O Selo desta quinzena foi emitido pelos serviços postais da então existente União Soviética (URSS) em 1959 numa homenagem a Selma Lagerlof.
Selma Lagerlof foi o primeiro nome que me apareceu quando há já alguns anos fiz uma pesquisa na internet sobre literatura sueca, uma curiosidade da altura devido ao facto de a minha geografia familiar se ter alargado à Suécia.
Efetivamente Selma Lagerlof é uma das escritoras mais famosas da Suécia, é conhecida em todo o mundo, como se vê até a URSS emitiu um selo com a sua figura. Foi a primeira mulher a receber um prémio Nobel de literatura (1909), foi também a primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Sueca, a sua esfinge pode ainda ser encontrada em notas suecas de 20 coroas.
Selma Ottilia Lovisa Lagerlöf nasceu em Mårbacka, em 20 de novembro de 1858, e faleceu, no mesmo sítio, a 16 de março de 1940. O seu pai era militar e a mãe filha dum rico industrial da região. Mårbacka era uma propriedade que os seus pais administravam e que a partir de certa altura foi vendida por ter entrado em insolvência. Selma conseguiu, contudo, anos mais tarde, recuperá-la (o prémio nobel deve ter dado uma boa ajuda) e viver lá o resto da sua vida, mesmo quando membro da academia sueca. Para além de génio nas letras Selma parece ter sido também uma forte e eficiente gestora.
Selma Lagerlof viveu grande parte da sua vida com a companhia de Sophie Elkan, que conheceu em 1894, também escritora, mas de romances históricos. Apesar de muito próximas, as duas escritoras criticavam mutuamente os seus trabalhos, haveria uma espécie de concorrência entre elas, da qual Selma saiu largamente vencedora ao que parece com algum despeito de Sophie. Selma era ainda uma militante feminista, dedicou muito do seu tempo à causa da independência e progresso social da mulher.
O imaginário nórdico está, ainda hoje, povoado de gnomos, duendes, trolles e fantasmas todos inseridos em relatos e lendas populares. Na altura a literatura sueca estava focada no realismo naturalista. Selma recriou aquela atmosfera ficcional nos seus livros, regressando assim de certa forma ao romantismo. Da imensa bibliografia de Selma Lagerlof apenas li o livro “O imperador de Portugal” que até nem é dos mais famosos. Comprei-o pela curiosidade do título, afinal não tem nada a ver com Portugal, é um livro extraordinário, uma escrita subtil, a história dum pai camponês que adora a filha, que chama e vê como princesa que, contudo, na vida real, se prostitui na cidade para onde emigrou; é também a descrição da morte do mundo das tradições rurais, e da emergência do novo mundo, urbano e desapiedado que o veio substituir, conforme se refere nas notas do livro. É um dos poucos livros da minha biblioteca pessoal que foi pontuado com cinco estrelas.