Cardus Edição 17, 01-10-2017
A presente série de quatro selos, dedicada aos quiosques de Lisboa, foi emitida pelos CTT de Portugal em 19 de março de 1985, com base em originais em guache da pintora Maluda. Estão representados os seguintes exemplares:
- Quiosque da Calçada R. dos Santos;
- Quiosque do Tivoli;
- Quiosque do Porto de Lisboa;
- Quiosque Rua da Artilharia 1.
O selo que representa o Quiosque do Tivoli (vermelho) venceu no ano de 1987 o prémio de melhor selo em offset, na "Government Postage Stamp Printer’s Conference", nos EUA.
O termo quiosque parece que vem do turco (kioshk) e designa um pequeno pavilhão de estilo oriental de madeira e ferro, para venda em locais públicos, sobretudo de tabacos, jornais e revistas. Ao expandir-se na Europa o quiosque manteve o seu aspeto oriental, mas com funções diferentes, no nosso caso foi utilizado especialmente para a venda de refrescos. O mais antigo quiosque de Lisboa implantou-se no Rossio em 1869, no princípio do século passado contavam-se cerca de três dezenas de quiosques na cidade, mas foram caindo em desuso, hoje em dia contam-se pelos dedos os que ainda existem.
Como disse os quiosques foram pintados por Maluda, uma pintora da qual conheço alguma obra (são famosas as suas 39 janelas), para além das séries de selos que desenhou por encomenda dos CTT. Tinha um traço muito próprio, muito geométrico, desenhos com muita luz, cor (tons claros) e efeitos contrastantes.
Como pessoa, Maluda era extremamente curiosa como pode ser visto num artigo da autoria de Rui Catalão, publicado em 11/02/1999 no jornal “O Público”, que tomo a liberdade de transcrever nas partes que achei mais interessantes:
Maluda, cujo nome de batismo era Maria de Lourdes Ribeiro, nasceu a 15 de novembro de 1933, provavelmente em 34 (em entrevista recente afirmava ter cinquenta e poucos...). Apesar de se considerar moçambicana, nasceu em Goa, numa altura em que o pai, oficial do exército, tinha sido colocado numa comissão de serviço. Passou a infância e juventude em Lourenço Marques, atual Maputo, e só deixou Moçambique aos 30 anos, quando o seu atelier era já um dos mais apetecidos locais para a vida social. Enquanto pintava, os amigos cirandavam pela casa, de tal forma que o seu empregado, apelidado de Automóvel, apitava nas curvas para poder passar com a bandeja do whisky - segundo ela própria contava. De resto, o whisky foi sempre a sua bebida de eleição. Juntamente com o vinho tinto, era a bebida que considerava nobre. De Moçambique seguiu para Paris, onde estudou durante quatro anos, com uma bolsa da Fundação Gulbenkian.
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Já em Lisboa descobriu os verdadeiros motivos da sua pintura. A topografia acidentada da cidade, as formas geométricas dos telhados, as janelas, a própria paleta que marcou o seu estilo definiram aquilo a que chamava uma "síntese geometrizante", em que "os elementos da paisagem são arquétipos tratados como elementos de pintura abstracta". A cor, para Maluda, exercia "uma função rítmica" e, apesar da paixão que tinha por Moçambique (onde regressou há dois anos), dos quadros que fez no Alentejo, na Suíça ou na Baía, Lisboa tornou-se o cenário predominante do seu trabalho. Amiga da vida social, mundana q.b. e frequentadora do Botequim, quando Natália Correia liderava a tropa boémia, era, no entanto, "assumidamente solteira" e gozava os prazeres de uma solidão parcimoniosa na sua casa da Lapa, de onde avistava Lisboa, o Tejo e o mais que daí sobrasse. Antifeminista, de formação super-católica mas agnóstica por escassez de fé, era uma das pintoras nacionais mais requisitadas, fosse em quadros originais ou em serigrafias. Afirmava que os seus quadros eram caros para diminuir a especulação e o oportunismo dos leilões. Pintava todos os dias, mesmo aos fins-de-semana, mas lentamente. Acreditava que um pintor inspirado era uma história do século XIX e quando terminava um quadro já havia uma lista de espera. A Maluda o dinheiro apenas servia "para acalmar os nervos". Assegurou que a manifestação burguesa mais importante da sua vida foi contratar um motorista, uma vez que o trânsito lisboeta a exasperava. Era, no entanto, uma excelente condutora e em Lourenço Marcos chegou a ganhar cinco taças em provas de rali. Equitação, esgrima, voleibol, basquetebol, golfe, enfim, foi uma desportista, tinha em casa uma mesa de matraquilhos, era admiradora de futebol e benfiquista por causa de Eusébio, seu conterrâneo. Também gostava de tocar viola e chegou a cantar na televisão, ora com Raul Indipwo, ora com Marco Paulo, ambos amigos.