Cardus Edição 16, 15-09-2017

150º Aniversário de Camilo Pessanha


Os dois selos acima foram emitidos pelos correios de Macau em 07-09-2017 e comemoram os 150 anos de nascimento de Camilo Pessanha.

Como se pode observar, a língua portuguesa continua presente nas emissões filatélicas de Macau, o próprio sítio dos Correios pode ser totalmente consultado em português. É também grato ver uma figura portuguesa (embora naturalmente com grandes ligações a Macau) ser honrada com uma emissão filatélica comemorativa fora do nosso país.

Camilo Pessanha é um grande nome do simbolismo português. O seu livro de poemas mais famoso é Clepsidra, existem no entanto mais alguns publicados após a sua morte, tem também obra publicada em língua chinesa.

Camilo Pessanha teve uma vida muito desencontrada, o que influenciou naturalmente a poesia que escreveu. Nasceu em Coimbra, filho dum juiz e duma criada da casa, pôde, contudo, formar-se em direito. Teve diversos desencontros amorosos que só alimentaram o seu temperamento sensível, tímido e pessimista e que provavelmente o levaram até Macau onde se dedicou à cultura e língua chinesas. Aqui, no mercado próprio, comprou uma concubina de nome Ngo Lei Lam com quem viveu até à morte desta após o que passou a viver com Kuoc Ngan Ieng (em português Águia de Prata) ao que se diz filha da defunta e com quem parece ter tido uma relação mais cúmplice e sentimental. Os selos foram desenhados por Carlos Marreiros, grande conhecedor e investigador da obra e vida de Camilo Pessanha, que por alguma razão, colocou nos selos e com um grande destaque Águia de Prata, como disse, a última companheira do poeta.

O ópio faz parte da cultura oriental, Camilo Pessanha encontrou-se com ele, morreu aos 59 anos, segundo parece por excesso daquela droga.

A poesia do poeta está muito divulgada, trancrevo um soneto muito conhecido com o título “Magdalena”:


Ó Magdalena, ó cabelos de rastos,
Lírio poluído, branca flor inútil,
Meu coração, velha moeda fútil,
E sem relevo, os caracteres gastos,

De resignar-se torpemente dúctil,
Desespero, nudez de seios castos,
Quem também fosse, ó cabelos de rastos,
Ensangüentado, enxovalhado, inútil,

Dentro do peito, abominável cômico!
Morrer tranqüilo, - o fastio da cama.
Ó redenção do mármore anatômico,

Amargura, nudez de seios castos,
Sangrar, poluir-se, ir de rastos na lama,
Ó Madgalena, ó cabelos de rastos!