Cardus Edição 15, 01-09-2017
Estes quatro selos foram emitidos pelos Correios de Angola em 1959 e retratam a Welwitschia Mirabilis que é uma planta que apenas existe no deserto do Namibe. Os desenhos são da autoria de Neves e Sousa um pintor muito conhecido no mundo português, naturalmente já falecido.
A welwitschia foi descoberta pela botânico austríaco Friedrich Welwitsch, que ao serviço do estado português, a descobriu em 1859. A planta é caracterizada por extensos braços (até 3 metros) dum verde muito forte que contrasta com a tonalidade clara do deserto. É uma planta nitidamente preparada para suportar grandes períodos de seca, tem raízes fundas e fortes, cresce muito devagar, diz-se que dura 500 a 600 anos. As folhas são intragáveis, nenhum animal lhes toca, daí talvez a longa longevidade. Já ouvi muitas histórias acerca desta planta, a mais imaginativa de que se tratava duma planta carnívora, cujo alimento era os insetos que ficavam presos na floração central de onde eram paulatinamente assimilados.
Relativamente ao pintor e poeta Neves e Sousa, como disse autor dos desenhos, era um pintor muito próprio e muito conhecido no então mundo português. Era uma pessoa dalguma simplicidade, um grande observador, com uma grande paixão pela cultura angolana. Passou a vida no “mato”, chegou a estar ausente de casa durante um ano. Enquanto no mato, anotava, esboçava e pintava uma vez que levava sempre consigo o material das aguarelas. Cerimónias a que assistia, cubatas onde também vivia, tudo era registado em apontamentos, esboços, ou pintura. Embora menos, também se dedicou a Moçambique, Guiné-Bissau (onde lia o Alcorão para melhor entender os muçulmanos) e Cabo Verde, onde também passou algumas temporadas.
A independência de Angola causou alguma turbulência na vida do pintor, acabou por se refugiar no Brasil, onde teve de iniciar um novo ciclo de vida. Felizmente a esposa, sem ele o saber, tinha conseguido levar de Angola todo o material de trabalho do pintor, que pode assim continuar a pintar a sua terra ausente. Não se ficou, contudo, por este saudosismo deprimente, a tempo próprio, voltou a viver, retomou as saídas de casa para observar, registar e pintar, não a sua Angola, mas a nova terra que o acolheu e que o estima.
Como disse também era poeta, publicou alguns livros, o poema abaixo é muito conhecido, foi escrito já no seu exílio no Brasil:
Ser angolano é meu fado, é meu castigo.
Branco eu sou e pois já não consigo
mudar jamais de cor ou condição...
Mas, será que tem cor o coração?
Ser africano não é questão de cor,
é sentimento, vocação, talvez amor.
Não é questão nem mesmo de bandeiras,
de língua, de costumes ou maneiras...
A questão é de dentro, é sentimento,
e nas parecenças de outras terras,
longe das disputas e das guerras,
encontro na distância esquecimento!