Cardus Edição 11, 01-07-2017
Desde há uns poucos anos que as instituições postais de diversos países fazem regularmente emissões comuns de selos. Os selos são postos em circulação no mesmo dia, regra geral apresentam as mesmas imagens, as diferenças são apenas no texto e nas taxas. Portugal já tem uma boa série delas, no principio deste ano realizou mais uma em conjunto com a India.
As relações entre Portugal e a India têm mais de 500 anos. Digamos que começaram com Vasco da Gama, quando este andou a fazer estragos ao longo da costa indiana, houve muitos altos e baixos, provavelmente mais baixos que altos, o ponto mais baixo foi atingido em 1962, quando a União Indiana “invadiu” Goa, Damão e Diu e correu connosco de lá para fora. De há uns tempos para cá, os governos dos dois países tendem a aproximarem-se novamente, exemplo desta tentativa é a recente visita do primeiro ministro de Portugal, este também com raízes no grande espaço que é a India.
As emissões comuns procuram apresentar temas ou coisas semelhantes nos dois países, neste caso caiu sobre duas danças típicas: a dança dos paus do Gujarat (Dandiya) e a dança dos Pauliteiros de Miranda. A escolha prende-se com a constatação de que as duas danças são semelhantes pois ambas são guerreiras e utilizam paus a simbolizar as espadas antigas.
Estas duas danças estão descritas na pagela dos CTT desta emissão que tomo a liberdade de transcrever na parte que interessa:
A dança Dandiya (termo do noroeste da Índia que designa "pau") foi criada há milhares de anos como uma expressão devocional em honra da deusa-mãe Durga. Nesta dança os paus decorados e coloridos, dandiyas, representam as espadas da deusa Durga. No decurso da performance que ainda hoje é efetuada encena-se a batalha mítica entre a deusa em causa e o demónio-rei Mahishasura.
As dançarinas deslocam-se em círculos, de uma forma ritmada, em volta do mandvi, utilizando vestidos tradicionais com adereços muito coloridos - choli, ghagra e bodhani dupattas. É normal os cabelos estarem decorados com espelhos, vidros ou joias que refletem a luz. Por seu lado, os dançarinos masculinos que também envergam os trajes tradicionais das suas regiões - turbantes e kedias -, onde se cosem espelhos para aumentar o efeito luminoso, movimentam-se numa roda complementar à das mulheres e no sentido oposto ao da roda feminina.
Existem assim nesta dança tradicional dois círculos independentes. Ambos os movimentos dos dançarinos são enérgicos, rodopiando uns sobre os outros com os paus (dandhiya) nas mãos, sempre ao ritmo variado dos batuques de vários tipos - dhal, dholak, bongo, etc... As danças Dandiya são sobretudo realizadas durante as noites do festival Navrati, em honra da deusa-mãe, no Estado do Gujarat.
A dança dos Pauliteiros é a mais importante manifestação folclórica da Terra de Miranda embora o seu alcance vá muito para além do concelho de Miranda do Douro. A sua origem pode estar na antiga dança pírrica grega, posteriormente difundida pelos romanos na região mirandesa. Esta era uma dança usada na educação e preparação militar na qual os intérpretes, alinhados em duas filas, simulavam manobras de ataque e defesa utilizando paus como armas enquanto se movimentavam ao som de uma flauta. De acordo com António Maria Mourinho, esta é uma dança comum a outras regiões da península e inclui tradições e representações militares que evoluíram de forma autóctone.
Acompanhados por três músicos (gaita de fole, caixa de guerra e bombo), os oito dançadores que compõem o grupo têm a função de guias ou peões, esquerdos e direitos, consoante a posição que ocupam. Vestem meias de lã, saias brancas com lenços a pender da cintura, camisa branca de linho, colete de burel, chapéu ornamentado com fitas e/ ou flores, e as coreografias que interpretam são conhecidas especificamente por lhaços (mirandês).