Cardus Edição 18, 15-10-2017
Circunstâncias da vida levam-me mais ou menos regularmente a Abrantes. Abrantes fica num alto sobranceiro ao rio Tejo, do alto da sua fortaleza tem-se uma vista muito abrangente do espaço envolvente, a parte sul dominada pelo
rio, azul da água e verde das margens, merece uma atenção muito especial. Tem um centro histórico muito bem tratado e decorado, muitas zonas pedonais com a típica calçada portuguesa, uma boa panóplia
de esculturas espalhadas pela zona, e muitos canteiros com flores vistosas e de cores alegres. Toldos bem desenhados sombreiam as ruas, só quem conhece o calor no interior dá o devido valor a estas simpatias da câmara.
Os edifícios públicos estão bem tratados, o hospital tem uma entrada que faz inveja a muitos hotéis estrelados.
Abrantes fez o ano passado 100 anos (como cidade) e a câmara local resolveu comemorar isso condignamente com uma série de iniciativas tudo à volta do 100. Tivemos assim as exposições “100 anos de artes plásticas” e “100 anos de arquitetura em Abrantes”, a conferência “Abrantes – 100 anos”, uma cerimónia em que foram distribuídos 100 galardões por instituições ou pessoas de reconhecido valor, foram plantadas 100 árvores e finalmente foi construído um mural intitulado “100 Anos, 100 Rostos” onde se encontram as fotografias e nomes de 100 abrantinos mais ou menos famosos que é o tema da foto desta quinzena.
Para a realização deste mural a câmara convidou atempadamente a população a enviar fotos de familiares ou amigos que de algum modo tivessem marcado positivamente algum lugar do concelho, acompanhadas de um formulário devidamente preenchido, onde provavelmente se expunha a razão da escolha. Os 100 eleitos têm então o seu nome e foto (uma tira vertical muito estreita, mas que permite identificar a pessoa) no mural que pode ser visto no muro logo abaixo da biblioteca municipal, outro espaço também bem decorado e arquitetado, infelizmente com uma taxa de ocupação muito pequena, pelo menos nos poucos dias em que usei as instalações.
Descobri recentemente que as bibliotecas são bons sítios para se realizar trabalho de escritório: internet grátis, sossego, livros à descrição, ar condicionado, condições que nem sempre temos em casa. Frequento-as assim regularmente, toda a vilória tem uma, até agora encontrei sempre lugares disponíveis. De vez em quando vem-se até ao exterior, ou para devolver a chamadinha do telemóvel, ou pura e simplesmente para andar um bocado, mexer as pernas, isto de estar sentado muito tempo tem as suas consequências. Numa destas escapadelas ao exterior, neste caso em Abrantes, dediquei dez minutos aos nomes no mural, aqui ficam algumas curiosidades:
Bernardino Machado é o primeiro nome da lista. Foi por duas vezes presidente da república portuguesa, nasceu no Brasil, acho que nunca viveu em Abrantes, mas, e aqui deve estar a razão, assumiu, num grande comício realizado
ainda nos tempos da monarquia, que Abrantes seria elevada a cidade assim que o país se tornasse República. A promessa foi cumprida não no primeiro mandato do presidente, mas no segundo, os tempos eram muito conturbados
na altura;
António Botto, abrantino de gema, figura naturalmente no mural, a biblioteca municipal tem o seu nome. Resisti a não colocar aqui uns versos muito conhecidos deste poeta;
Existem quatro nomes que começam
por Pe., assumo que há quatro grandes padres abrantinos;
Contei 22 nomes femininos, vai haver mais com certeza quando Abrantes fizer 200 anos e revisar o mural;
Eduardo Catroga também lá está, confirmei
que também é abrantino de gema.
Em dez minutos foi o que se pode arranjar, tenho de confessar que conheço muito mal as gentes de Abrantes.