Cardus Edição 13, 01-08-2017

Globalização


A esplanada estava praticamente vazia, não fora a música e seria um sossego perfeito. Na zona dos sofás, uma jovem (espanhola?) lia um livro, na mesa ao lado, alguém, olhos fixos no telemóvel, dedinhos deslizando sobre ele, ria-se de vez em quando, de vez em quando murmurava umas palavras, digo, uma espécie de grunhidos impercetíveis, mas vivos, um grande balde de cerveja à frente, o nível sempre descendo, é preciso entreter o estômago enquanto não chega a comida encomendada.

A música que passava, felizmente não muito alta, começou pela brasileira, passou pela portuguesa e quando me levantei, estava na angolana. Não há muita música portuguesa, mas há muita música em português, a algazarra espanhola não gosta muito, só conhece um tipo de música, mas é bom para lhes abrir os ouvidos, como diria Pessoa, ao princípio estranha-se, mas depois entranha-se.

A comida chegou à mesa do lado, a cozinheira veio trazê-la pessoalmente, é cubana, como o colonizador fala alto e bom som. O cliente ri-se, não percebe nada de espanhol, larga um obrigado à portuguesa, pede por gestos mais um balde que o primeiro já se foi.

O meu bagaço está-se quase a ir e o alguém mete-se comigo. Começa em inglês, é afinal suíço, de Lucerna, fala alemão. O bagaço aviva-me a memória o alemão sai-me escorreito. As banalidades do costume, o sol, o calor, o vento, o surf, a família que chega dentro de três dias. E os portugueses, que há muitos na Suíça, são uns ótimos trabalhadores, trabalham muito e falam pouco, provavelmente este nosso amigo também já está marcado pela algazarra espanhola.

O Bagaço chegou ao fim, o segundo balde também. A espanhola já se tinha levantado (digo que era espanhola porque de despediu com um hola atencioso), a cubana regressado à cozinha, deixo o suíço com mais um balde para a sossega, aufwiedersehen, e aí vou eu para o meu retiro, Portugal já não é só dos portugueses, só faltava a menina da receção para a globalização ficar completa.